O inconsciente é uma escrita. Aula de hoje, do Isidoro, no Movimento Freudiano. Uma escrita de significantes sem sentido, mas que teimamos em imaginarizar e encher de sentidos. E como não fazê-lo quando o filósofo Heráclito é título da aula? Há pouco mais de um ano não faria diferença, hoje eu ri sozinha da coincidência. Cujo significado é imaginário. Sozinhos só analisamos imaginariamente. Apenas falando besteiras para um outro, no lugar de suposto saber e que se sabe mero objeto, podemos, quem sabe, falar e ouvir a leitura do nonsense inconsciente. De um "os homens somem" que se despe de imaginário vitimista e se ganha nonsense na leitura "somen somem". Homens somem mas alguns aparecem, voltam, surpreendem. Nem precisa ser alguns, só um.
terça-feira, maio 22, 2018
segunda-feira, maio 14, 2018
domingo, maio 13, 2018
Das possibilidades de vida
Há um ano eu passei o dia das mães não no tradicional almoço da família (que junta esse dia e o aniversário do meu irmão que sempre cai próximo, por ser dia 11/05) mas viajando para São João Del Rei, para ministrar um curso e participar do Seminário Caminhos Junguianos (pensando que havia alguma graça de uma analista que estuda Freud e Lacan e nada conhece de Jung ser convidada, por um professor amigo, para um seminário com esse nome, ainda que o meu mini-curso nada tivesse a ver especificamente com orientações analíticas) da UFSJ. Quase perdi o ônibus, pois não atentei que seria mais difícil conseguir táxi na hora do almoço tradicional (e comercial). Mas tive sorte e não perdi o ônibus. Só agora, um ano depois, percebo que tive sorte de não perder o ônibus. De outra feita já havia perdido ônibus para a mesma São João Del Rei, para o mesmo curso e fiz uma pequena peregrinação entre cidades mineiras para chegar a tempo. Penso agora que perdi o ônibus na viagem em que o então namorado iria me encontrar lá. Queria eu perder o ônibus para, já então, não encontrá-lo? E dessa vez não quis perder o ônibus, ou se quase quis, alguma outra coisa (sorte? desejo?) não me fez perder. E pude chegar para a viagem que marcaria o início do fim do luto. Um processo de luto iniciado muitos anos antes (luto patológico, diria o DSM 5, sem sombra de dúvida). Processo de luto e de elaboração da castração, da falta, de perceber que não preciso ser quem eu penso que sou, que posso só ser. E ser surpreendida, não me aferrando a culpas, obrigações, certezas, a abusos do super-eu/ideal do eu e do(s) outros(s). Ser surpreendida pelo olhar do outro, pela minha capacidade de retornar esse olhar, de sustentar meu desejo até onde possível na relação com o desejo do outro. Ser surpreendida em me reconhecer desejante e desejada. Me surpreender de me reconhecer hoje querendo surpresas, eu que achava ser uma pessoa afeita à rotina. Talvez permitir que outro esteja em mim, na vida, só possa ser possível se eu me permito surpresas, se eu desejo genuinamente conhecer um outro que não um espelho meu (não que o amor não tenha suas identificações e projeções, essa palavra que vim conhecer exatamente a partir dessa viagem...). Se eu reconheço a falta constitutiva, que eu não tenho como preencher, mas quem sabe um outro possa me dar algo novo que ajuda a preencher.
O outro que pode me dar algo enquanto me descubro também disposta a dar algo de mim, a abrir mão de mim pois não preciso mais ser quem eu pensava ser, posso ser alguém nova em novas relações. Se o que me constitui é a falta e são as relações que preenchem algo dessa falta, só me resta estar em relação, em transferências de amor (toda transferência é transferência de amor).
Comecei a escrever pelo aniversário de um ano da viagem que me surpreendeu (e que gerou uma segunda, solar, desejante, os dias mais felizes) e dei o nome de possibilidade de vida e nem estava claro que passava pela elaboração e fim do luto da castração. Demorou bastante esse processo, mas faz parte do meu sintoma, minha enrolação com o tempo (não à toa por muitos e muitos anos sempre cheguei atrasada na análise, não à toa quase perdi o ônibus), com o qual ando tentando me acertar. O tempo cronológico dessa viagem tem um ano. O tempo lógico me parece com o que canta a música sobre o coração (coração que marca o ritmo, o tempo do nosso corpo) "...não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira". Nesse tempo coube amor, vida, viagens, elaborações, coube tantas coisas que não podia imaginar enquanto estava sentada, jantando sozinha em frente à igreja (falta elaborar minha questão com igrejas...) matriz de São João Del Rei.
segunda-feira, maio 07, 2018
Desejo
Que um dia a paixão chegue ao mesmo tempo
(Não precisa ser cronometrado)
A mim e ao sujeito, feito objeto, amado
Esse dia pode durar dias, meses, anos
Ou pode durar horas
Que serão infinitas, como cantou o Poetinha
O infinito comporta em si todas as possibilidades
A paixão é a centelha da possibilidade do amor
Que por sua vez nos capacita a entender estrelas
(Como disse outro poeta)
E talvez o (in)finito
Tal qual banda de Moebius
(Na capa do Seminário)
Paixão, amor e infinito
São contínuos
E nós as formigas
Caminhando pela banda
E nos esbarrabando vez por outra
Em encontros estrelados
Que um dia a paixão chegue ao mesmo tempo
(Não precisa ser cronometrado)
A mim e ao sujeito, feito objeto, amado
Esse dia pode durar dias, meses, anos
Ou pode durar horas
Que serão infinitas, como cantou o Poetinha
O infinito comporta em si todas as possibilidades
A paixão é a centelha da possibilidade do amor
Que por sua vez nos capacita a entender estrelas
(Como disse outro poeta)
E talvez o (in)finito
Tal qual banda de Moebius
(Na capa do Seminário)
Paixão, amor e infinito
São contínuos
E nós as formigas
Caminhando pela banda
E nos esbarrabando vez por outra
Em encontros estrelados
domingo, maio 06, 2018
Das elaborações (frutos de um trabalho de análise) que surpreendem, tal qual aquilo que chamam insight, mas talvez indo além. No meio de um domingo de plantão - isto é, enquanto estou na função de cuidar de sujeitos internados por suas loucuras - estudando sobre Balint para um curso, ao ler que a esposa do psicanalista mudou seu sobrenome penso eu "inveja dela que conquistou ele", para no segundo depois perceber que se trata de estar, pela primeira vez, disposta a abrir mão do meu sobrenome. Algo que sempre me definiu e do qual tenho orgulho. Mas que já não me é mais necessário, o sobrenome de família, como um significante fixado. Talvez, quem sabe, sinal de que a cadeia significante pode deslizar, mais um pouquinho de narcisismo elaborado.
(Claro que não se trata de querer me chamar Sra. Balint! rs)
Sobre insight:
"Para Lacan, o insight é a experiência psicológica de uma operação intelectual que define bastante corretamente o "instante de ver", seguido, na sua concepção, pelo tempo de compreender e pelo momento de concluir, os três tempos que constituem o tempo lógico (Lacan, 1973 [1964])11. O instante de ver ocorre quando há uma sutura, uma junção do imaginário e do simbólico (p. 107)."
ABEL, Marcos Chedid. O insight na psicanálise. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 23, n. 4, p. 22-31, dez. 2003 . Disponível em . acessos em 06 maio 2018.
Sobre a cadeia significante deslizar:
quarta-feira, maio 02, 2018
Há que se abrir mão de muito narcisismo para estar em uma relação. Há que se abrir mão de ser sujeito todo o tempo para ser também objeto do desejo do outro. Podemos até estar com alguém, transar, casar, namorar e o que mais a cultura defina como algo que se chama de relação. Mas só o despojamento de si, uma capacidade nada cognitiva de rir de si e saber que há uma falta que qualquer objeto pode preencher sem nunca satisfazer totalmente, só assim para elegermos e sermos (quem sabe) eleitos ao mesmo tempo objeto de uma relação amorosa. Só quando podemos nos despojar do lugar de sujeito para sermos qualquer objeto para o desejo do outro que podemos também fazer do outro um objeto do nosso desejo. Claro, há de haver algo de sublime, como no encontro do objeto de arte, que nos captura não em uma relação intersubjetiva, mas de objeto que nos olha enquanto é olhado.
segunda-feira, abril 30, 2018
Os sentimentos são físicos. Sentimos a partir dos sentidos do corpo, na relação com o mundo, na relação eu X outro. Passei muito tempo a me enganar de que os sentimentos eram puramente mentais. Acho que foi uma das minhas defesas à castração. Cada vez mais me percebo em um corpo de sentidos e sentimentos, em relação com outros corpos. A relação, os relacionamentos, ocorrem exatamente desses encontros. Eles podem até ser mediados por corpos eletrônicos, à distância (nosso mundo Black Mirror), mas há de haver encontros. Respondendo a mim mesma (e a um título de filme) de não muito tempo atrás: de pouco serve o amor só em pensamento. O amor só se faz em atos e em relação.
segunda-feira, abril 23, 2018
sexta-feira, abril 20, 2018
Uma carta não enviada.
Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2017.
Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2017.
Mais uma vez, mais um sábado à noite (na verdade já é madrugada de domingo aqui no Rio. Há uma semana, na sua cidade, ainda seria sábado) e eu me vejo escrevendo por sua causa. Vale a pena, literal e figurativamente.
Da outra vez eu me vi escrevendo um inventário dos meus amores em uma noite de lágrimas pela certeza de que você tinha um relacionamento. E que isso significava que qualquer fantasia e qualquer tentativa de contato minha não serviam de nada.
Ah, o tempo me provou errada em meu sintoma ansioso e sempre negativo.
O tempo me provou errada das melhores maneiras.
Entre te conhecer do nada, em um almoço atrapalhado, após tê-lo percebido em uma aula, até o convite para a pizza, com aquele vinho horrível que era o único do restaurante (mas o melhor vinho horrível que já tomei), passando por adicioná-lo no Facebook (estamos em 2017), chegando ao que foi passar o final de semana com você, nem as minhas melhores fantasias deram conta do que foi tudo isso. E olha que fantasiar é algo que eu acho que sei fazer. E eu fantasiei muito estar com você. Ainda assim, o encontro real foi melhor que o imaginário. Não foi perfeito, pois eu teria ficado todo o tempo com você se pudesse (você não pôde ou não quis), mas do que foi, do que se deu em 3 dias ou quase 72 horas exatas (de meia noite e meia de sábado a meia noite e meia da terça-feira), conto como talvez os melhores dias até hoje.
O melhor encontro sexual, sem dúvida alguma. Da intensidade à facilidade do contato físico, passando pelo fato, talvez comum para muita gente mas não para mim, de que me senti completa no sexo com você. No sentido do registro clichê de que foi como se tudo se encaixasse. Você me tomou da forma que nenhum outro homem antes me tomou e eu respondi de formas que eu nem sabia que sabia fazer. Foi incrível e ótimo e eu poderia ter ficado naquela cama todo o tempo, contanto fosse com você.
Você é a primeira pessoa de quem eu pensei: eu ficaria numa ilha deserta com ele. Só com você. (Quanto clichê, deve não ser, cantariam Los Hermanos. E não foi, dou spoiler nesse adendo da releitura de abril de 2018.)
O que me leva a lembrar que não foi só o sexo, ainda que ele tenha sido um diferencial. Do qu al talvez já houvesse indícios na atração que acho que se deu ainda em uma outra cidade, que não aquelas onde moramos. Ou eu sobrevalorizei seus olhares, o próprio convite da pizza, você ter ficado próximo até que eu entrasse no táxi para a rodoviária? Isso tudo foi só um interesse menor de alguém extrovertido, como você bem gosta de se classificar/diagnosticar?
Não foi só o sexo. Foram o chope, os cafés, as conversas, o quanto fazendo tudo isso eu me sentia confortável com você. Foi ficar nua com você e nem cogitar alguma vergonha, algum comportamento inibido, pudico. Foi natural e bom ficar deitada nua ao seu lado. Ou em um momento menos intenso, trocar de roupa na sua frente. Esse texto tem um tom piegas, quem sabe eu o reveja. Mas talvez seja piegas e ridículo, como todas as cartas de amor já defendidas por Pessoa.
Eu mandei uma mensagem de madrugada dizendo estar sentindo saudades. Ação tão pouco racional e tão sincera, pois naquela noite, depois de 14 horas com você, eu me senti sozinha naquele quarto de hotel, acompanhada só das memórias mentais e físicas da sua presença no quarto e em mim. Acho que eu nunca senti falta assim de alguém específico. Já me senti sozinha, já quis estar com alguém, já estive, mas você foi a personificação sustentada desse alguém. Não tive dúvidas enquanto estive com você. Uma obsessiva que não teve dúvidas...
Foram os risos, as histórias contadas, foi assistir sua aula – e aqui eu paro para dizer como admiro você intelectualmente e a sua capacidade de organizar pensamentos na aula e a sua disponibilidade genuína para os alunos. Eu teria me apaixonado pelo professor, se tivesse sido sua aluna (isso seria projeção?). Foi você me convidar para falar na sua aula. Pode ter sido pela sua extroversão fazer esse convite inusitado, mas para mim foi uma honra. Eu me senti parte de algo seu, como numa cumplicidade. Pode ser exagerado, mas foi como senti.
Sentir talvez seja um verbo essencial nessa história romântica de poucos dias (alguns mais se considerarmos todo o flerte virtual). Eu voltarei aí o quanto antes se você me quiser. Simples assim.
domingo, dezembro 31, 2017
Trinta e um de dezembro, que dia melhor para perceber, quase num insight, sozinha em casa, que você é uma pessoa carente? Talvez não pudesse ser melhor mesmo, que o novo ciclo da terra em tono sol permita que eu elabore a carência e me ofereça em relacionamentos por amor, desejo, paixão, falta (aquela que nos é constitutiva, a da castração), mas não pelo sentimento de carência. Se análise é a análise do Complexo de Édipo, cada vez percebo na minha experiência novas nuances desse estádio fundamental da constituição humana para a psicanálise freudolacaniana.
Da experiência traumática (por não ser natural) da castração (de experimentar que há a falta e que ela é constitutiva) via complexo fraterno (um outro, meu irmão, era tão ou mais desejado que eu por meus pais) e assim me perceber, ou experienciar, mais que perceber cognitivamente, não suficiente, experienciar a falta em mim, transformá-la em carência e autossuficiência para não lidar com a falta. A carência por buscar no outro o que me falta de forma puramente imaginária, como se um um qualquer pudesse aplacar a falta. E a autossuficiência por tentar dar conta da falta sozinha, já que os encontros via carência nunca seriam realizados, posto que sempre inflados imaginariamente. Não era um outro, era a imagem fantasística do outro (como na cena de Vertigo, da realização do fantsama, debatida por Zizek). Em uma única palavra: narcisismo.
Um processo de elaboração psicanalítica do narcisismo que foi do enfrentamento de uma neurose que impedia a mera aproximação sexual do outro, ao enfrentamento da castração em ato no campo do trabalho e da família (duas mortes), à possibilidade de encontro com o outro mas de enfrentamento da castração dentro desse encontro que tentei negar por um tempo enorme até aparecer em atuação o fim da relação, até hoje, me percebendo e experienciando como uma neurotiquinha carente e em pequenas (ou nem tanto?) atuações ridículas (mas como fugir de ser ridícula às vezes? Só tentando obsessivamente me controlar, o que parece que eu tenho feito menos, o que já é um caminho). Mas talvez de uma carência que esteja mais próxima da elaboração de algum novo lugar, de sujeito de falta mas também de desejo. Da passagem, no grafo lacaniano, da demanda (a carência) ao desejo.
E como a psicanálise fala de um a posteriori que já estava lá, não à toa me vem a lembrança de uma música boba mas que uma amiga uma vez disse, há 21 anos, me ser adequada:
"Não faz mal, eu tô carente mas eu tô legal" (cantada pela Mara Maravilha, um nome artístico algo autossuficiente).
E de uma passagem de um dos poemas que mais gosto:
"(...) Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenhocomo simples papel (...)"
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenhocomo simples papel (...)"
O elefante. Carlos Drummond de Andrade.
Que, diferentemente do final do poema, eu não reconstrua minha fantasia de carência, mas possa ultrapassá-la para algo novo no novo ano.
domingo, novembro 26, 2017
Reler o próprio blog e mais uma vez se surpreender com o que já estava lá...
terça-feira, abril 22, 2008
My Blueberry Nights (Um Beijo Roubado)
Wong Kar Wai, 2007
Às vezes é necessário que nos afastemos de nosso lugar de origem para que possamos ter uma outra percepção do que nos rodeia. Às vezes estar num outro lugar que nos é estranho, que não causa a familiaridade da origem permite a emergência de algo novo em nós mesmos. Talvez o já conhecido evoque mais racionalização e crítica (mas não sem sentimento), e quando estamos diante de algo novo apareça mais o afeto puro, ainda sem muita possibilidade de crítica, pois ainda não conhecemos aquilo que nos aparece.
O (primeiro) filme americano de Wong Kar Wai me fez pensar nisso. Talvez por ter me parecido seu filme mais sentimental, de um diretor cujos filmes sempre me pareceram marcados por sentimentos enormes, mas reprimidos, impossíveis. 2046, seu filme anterior, me fez pensar exatamente na (im)possibilidade do amor. Mas este My Blueberry Nights (cujo título brasileiro é simpático á doçura do filme, na verdade os títulos brasileiros dos filmes de Wong Kar Way são sempre bons) fala exatamente da busca de possibilidades. Começa com um fim de relacionamento, que leva ao um encontro. Norah Jones (que funciona como atriz, sua inexperiência parece ser utilizada pelo diretor exatamente para marcar a experiência de uma jovem inocente, no sentido de não prejulgar, criticar, de tomar as experiências como algo novo, como uma primeira vez, inexperiência cinematográfica vira inocência de olhar sobre o mundo) e Jude Law (maravilhoso, sempre, charmoso, sempre) se conhecem em meio a outras histórias de cada um, principalmente a dela. Mas Norah/Elizabeth vai embora, fazendo talvez a escolha menos usual, tal qual escolher a blueberry pie do título. Se aventura sozinha na América, não fugindo de uma nova história de amor (mantém cartões postais que contam sua vida para Jude/Jeremy), mas como se fosse necessário procurar algo de si mesma ao se aventurar, para poder retornar e começar um novo amor. Para que este seja realmente novo. A aventura, o risco, está na viagem, na solidão, na falta de certezas marcadas. Mas o que aparece nessa viagem são os encontros de outras pessoas, de outras possibilidades, espelhos que permitem a Elizabeth se reconhecer e descobrir nas diferenças de reflexo. E ao final, bem, ao final descobrimos nós que Wong Kar Wai também se permitiu uma nova escolha, talvez um momento de se reconhecer no reflexo do espelho americano e fazer um conto mais doce que os seus anteriores. Talvez um olhar inocente sobre uma outra cultura tenha permitido uma expressão mais sentimental que reprimida (ainda que essa repressão fizesse transbordar o sentimento, espelhando, permitindo identificação e encantamento...). Diferente, ainda que sendo a mesma base. Agridoces noites, mais doces... :-)
Wong Kar Wai, 2007
Às vezes é necessário que nos afastemos de nosso lugar de origem para que possamos ter uma outra percepção do que nos rodeia. Às vezes estar num outro lugar que nos é estranho, que não causa a familiaridade da origem permite a emergência de algo novo em nós mesmos. Talvez o já conhecido evoque mais racionalização e crítica (mas não sem sentimento), e quando estamos diante de algo novo apareça mais o afeto puro, ainda sem muita possibilidade de crítica, pois ainda não conhecemos aquilo que nos aparece.
O (primeiro) filme americano de Wong Kar Wai me fez pensar nisso. Talvez por ter me parecido seu filme mais sentimental, de um diretor cujos filmes sempre me pareceram marcados por sentimentos enormes, mas reprimidos, impossíveis. 2046, seu filme anterior, me fez pensar exatamente na (im)possibilidade do amor. Mas este My Blueberry Nights (cujo título brasileiro é simpático á doçura do filme, na verdade os títulos brasileiros dos filmes de Wong Kar Way são sempre bons) fala exatamente da busca de possibilidades. Começa com um fim de relacionamento, que leva ao um encontro. Norah Jones (que funciona como atriz, sua inexperiência parece ser utilizada pelo diretor exatamente para marcar a experiência de uma jovem inocente, no sentido de não prejulgar, criticar, de tomar as experiências como algo novo, como uma primeira vez, inexperiência cinematográfica vira inocência de olhar sobre o mundo) e Jude Law (maravilhoso, sempre, charmoso, sempre) se conhecem em meio a outras histórias de cada um, principalmente a dela. Mas Norah/Elizabeth vai embora, fazendo talvez a escolha menos usual, tal qual escolher a blueberry pie do título. Se aventura sozinha na América, não fugindo de uma nova história de amor (mantém cartões postais que contam sua vida para Jude/Jeremy), mas como se fosse necessário procurar algo de si mesma ao se aventurar, para poder retornar e começar um novo amor. Para que este seja realmente novo. A aventura, o risco, está na viagem, na solidão, na falta de certezas marcadas. Mas o que aparece nessa viagem são os encontros de outras pessoas, de outras possibilidades, espelhos que permitem a Elizabeth se reconhecer e descobrir nas diferenças de reflexo. E ao final, bem, ao final descobrimos nós que Wong Kar Wai também se permitiu uma nova escolha, talvez um momento de se reconhecer no reflexo do espelho americano e fazer um conto mais doce que os seus anteriores. Talvez um olhar inocente sobre uma outra cultura tenha permitido uma expressão mais sentimental que reprimida (ainda que essa repressão fizesse transbordar o sentimento, espelhando, permitindo identificação e encantamento...). Diferente, ainda que sendo a mesma base. Agridoces noites, mais doces... :-)
terça-feira, outubro 10, 2017
"Lembrou-se de uma sensação infantil, de abandono, um medo que devia ter sentido quando bebê."
Quando você descobre que, num texto de puro exercício ficcional, previu seu futuro de 29/12/2016 em 30/11/2008.
Ou não previ nada, mas simplesmente o medo sempre foi do abandono, só eu não sabia.
Se arriscar ao outro é se arriscar a ser abandonada.
Fui.
Talvez ainda seja mais alguma vez.
Mas ainda vale mais a pena o prazer do encontro que a solidão fóbica.
Quando você descobre que, num texto de puro exercício ficcional, previu seu futuro de 29/12/2016 em 30/11/2008.
Ou não previ nada, mas simplesmente o medo sempre foi do abandono, só eu não sabia.
Se arriscar ao outro é se arriscar a ser abandonada.
Fui.
Talvez ainda seja mais alguma vez.
Mas ainda vale mais a pena o prazer do encontro que a solidão fóbica.
terça-feira, setembro 26, 2017
sexta-feira, maio 26, 2017
Para que serve um blog em tempo de Facebook, Instagram, Twitter, Tinder? Já me fiz essa pergunta antes e agora tenho alguma resposta: serve para se esconder das pracinhas públicas, mas com alguma chance se de ser achada, lida. Para quando se está cheia de fantasias, um imaginário libidinalmente inflado. O blog como carta anônima (como naquele bobo e adorável filme da adolescência, Admiradora Secreta).
sábado, fevereiro 20, 2016
E um dia, não belo e sim angustiante, você descobre que sua psiquê é capaz de criar um nó só para te fazer admitir que é capaz de amar, de fato, em ação e corpo, e não só platonicamente. Um dia talvez eu olhe para trás e, sem angústia, veja a beleza de uma história de amor. No momento ainda tento vencer a angústia de ultrapassar uma neurose e poder amar.
domingo, fevereiro 14, 2016
Todas as Cartas de Amor são Ridículas
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
http://www.citador.pt/poemas/todas-as-cartas-de-amor-sao-ridiculas-alvaro-de-camposbrbheteronimo-de-fernando-pessoa
quarta-feira, setembro 02, 2015
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