O ano de 2004 começou com um filme sobre relacionamentos romântico, ainda que melâncólico e platônico, o (merecidamente) cultuado "Encontros e Desencontros". E depois dele vimos ainda "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e "Antes do Por do Sol", formando assim o que chamo de tríade dos romances românticos de 2004, que foi um ano cinematograficamente romântico. Mesmo que não romanticamente idealizados, eram filmes que tratavam dos relacionamentos de forma honesta mas cheia de sentimento, também honesto e real (por isso mesmo não são filmes eminentemente felizes, pelo contrário, são quase tristes mas ainda assim nos permitem pensar que vale à pena).
Já este 2005 começa com "Closer", um filme sobre relacionamentos que tem uma visão crua, quase cruel, fria, praticamente desprovida de sentimentos. Há pouquíssimos momentos de afeto no filme, quase todo o tempo os quatro personagens parecem movidos pelo puro e simples desejo, sem sentimento. Bom e interessante filme, ainda que mantenha um tom bastante teatral (é uma adaptação de uma peça). Mas acho que a tríade de 2004 é mais feliz no seu retrato do que nos move nos relacionamentos. Ao chegar perto demais do tal desejo que seria o condutor de nossas vidas, o autor Patrick Marber (ou talvez o diretor Mike Nichols) esqueceu do sintoma afeto, que permeia, dificulta mas também colore e permite que tenhamos essa certeza que tudo vale à pena. (Se a alma não é pequena, como escreveu Pessoa).
domingo, janeiro 23, 2005
sábado, janeiro 22, 2005
Diálogo:
- Menina, será que nossa sina é sempre se despedi?
- Não, Zé, nossa sina é sempre se encontrá.
Música (cantiga de roda):
Que lindos olhos
Que lindos olhos
Tem você
Que ainda hoje
Que ainda hoje
Eu reparei
Se eu reparasse
Se eu reparasse
Há mais tempo
Eu não amava
Eu não amava
Quem amei
Existe uma infinidade de experiências e conhecimentos a serem aprendidos ao longo de uma vida. Tantos mistérios que uma única vida não dá conta e acabamos tendo de fazer escolhas do que queremos saber. No meu caso, não há dúvidas, se conseguir dominar a arte de ficar calada e conter minha "perspicácia" e urgência de proferir sentenças que eu mesma reconheço serem estúpidas, já sairei da vida com bastante lucro. Quer dizer, dependendo do quanto demorar para aprender, a relação custo/benefício pode ser deveras negativa (se é que já não é)...
domingo, janeiro 16, 2005
A vida toma caminhos interessantes. Decisões que às vezes parecem sem porque (além daquele do desejo), ou cuja causa parece frívola podem levar a descobertas que além de interessantes fazem sentido com todo o resto.
É o caso de se encontrar sentido para um tema de monografia numa palestra sobre A Linguagem do Road Movie. Se bem que, é só aprofundar um pouquinho a idéia para ver que existe relação. Afinal, road movie é filme de estrada, filme de pessoas que viajam e que se sentem estranhas em algum lugar e se o tema da dita monografia é Viagem Patológica, a afinidade é bem clara, não?
Não me parecia, mas acabou sendo e rendeu algumas idéias para pensar. E, melhor de tudo, rendeu estímulo.
Moral da história: vale à pena fazer aquilo que se quer, mesmo que pareça sem razão!! ;)
É o caso de se encontrar sentido para um tema de monografia numa palestra sobre A Linguagem do Road Movie. Se bem que, é só aprofundar um pouquinho a idéia para ver que existe relação. Afinal, road movie é filme de estrada, filme de pessoas que viajam e que se sentem estranhas em algum lugar e se o tema da dita monografia é Viagem Patológica, a afinidade é bem clara, não?
Não me parecia, mas acabou sendo e rendeu algumas idéias para pensar. E, melhor de tudo, rendeu estímulo.
Moral da história: vale à pena fazer aquilo que se quer, mesmo que pareça sem razão!! ;)
sexta-feira, janeiro 14, 2005
20 anos de Rock In Rio (assim me disse um cartaz) e não temos um Rock In Rio no Rio (e isso não é redundância, já que tivemos um em Lisboa...) para comemorar decentemente. Os lucros talvez sejam mais importantes que o ideal de um festival de rock com milhares de pessoas ao ar livre alegres (e eu garanto que pelo menos o último foi assim). Uma pena... :( :(
Assim falou Nietzsche (no prólogo de A Gaia Ciência)
"Talvez não baste somente um prólogo para este livro; e afinal restaria sempre a dúvida de que alguém que não tenha vivido algo semelhante possa familiarizar-se com a vivência deste livro mediante prólogos. Ele parece escrito na linguagem do vento que dissolve a neve: nele há petulância, inquietude, contradição, atmosfera de abril..."
"... Toda filosofia que põe a paz acima da guerra, toda ética que apreende negativamente o conceito de felicidade, toda metafísica e física que conhece um finale, um estado final de qualquer espécie, todo anseio predominantemente estético ou religioso por um Além, Ao-lado, Acima, Fora, permitem perguntar se não foi a doença que inspirou o filósofo. O inconsciente disfarce de necessidades fisiológicas sob o manto da objetividade, da idéia, da pua espiritualidade, vai tão longe que assusta..."
"... essa vontade de verdade, de "verdade a todo custo", esse desvario adolescente no amor à verdade - nos aborrece: para isso somos demasiadamente experimentados, sérios, alegres, escaldados, profundos... Já não cremos que a verdade continue verdade quando se lhe tira o véu... Hoje é, para nós, uma questão de decoro não querer ver tudo nu, estar presente a tudo, compreender e "saber"tudo. [...] Devíamos respeitar mais o pudor com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de coloridas incertezas..."
Bom, eu não me acho capaz de saber toda a verdade, mas ainda sou jovem (ou "adolescente desvairada") o bastante para acreditar na sua busca...
"Talvez não baste somente um prólogo para este livro; e afinal restaria sempre a dúvida de que alguém que não tenha vivido algo semelhante possa familiarizar-se com a vivência deste livro mediante prólogos. Ele parece escrito na linguagem do vento que dissolve a neve: nele há petulância, inquietude, contradição, atmosfera de abril..."
"... Toda filosofia que põe a paz acima da guerra, toda ética que apreende negativamente o conceito de felicidade, toda metafísica e física que conhece um finale, um estado final de qualquer espécie, todo anseio predominantemente estético ou religioso por um Além, Ao-lado, Acima, Fora, permitem perguntar se não foi a doença que inspirou o filósofo. O inconsciente disfarce de necessidades fisiológicas sob o manto da objetividade, da idéia, da pua espiritualidade, vai tão longe que assusta..."
"... essa vontade de verdade, de "verdade a todo custo", esse desvario adolescente no amor à verdade - nos aborrece: para isso somos demasiadamente experimentados, sérios, alegres, escaldados, profundos... Já não cremos que a verdade continue verdade quando se lhe tira o véu... Hoje é, para nós, uma questão de decoro não querer ver tudo nu, estar presente a tudo, compreender e "saber"tudo. [...] Devíamos respeitar mais o pudor com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de coloridas incertezas..."
Bom, eu não me acho capaz de saber toda a verdade, mas ainda sou jovem (ou "adolescente desvairada") o bastante para acreditar na sua busca...
quinta-feira, janeiro 13, 2005
Tenho pensado na teoria do "Bom Selvagem", quase tentada a acreditar nela. Olhar minha cidade por janelas de onibus é constatar como modificamos de forma brutal a natureza, o mundo em que vivemos. Observar cidades como o Rio de Janeiro pode ser quase assustador: concreto, fumaça, prédios, carros, pessoas apressadas, assustadas. É claro que sempre (ou talvez seja "ainda") há a Baia de Guanabara, linda mesmo que poluída (mas já melhorou muito), as praias, a cadeia de morros, a Quinta da Boa Vista, a Floresta da Tijuca e são esses lugares que ainda fazem a vida no Rio valer (e muito!!) a pena (tá, a vida cultural também!). Mas esses locais naturais parecem ficar cada vez mais distantes, cercados por concreto por todos os lados. Deve ser implicância minha mas será que estamos mesmo evoluindo?? (Para a auto-destruição??)
terça-feira, janeiro 11, 2005
É a razão nossa capacidade soberana? Estaremos fadados, tal qual em A.I., a sermos substituídos, ou talvez evoluirmos para seres biotecnológicos, racionais por excelência? Conseguiremos nos livrar desse "sintoma" chamado afeto?
Ainda que sim, isso tornará essa nova espécie melhor, pior ou só diferente??
Ainda que sim, isso tornará essa nova espécie melhor, pior ou só diferente??
sábado, janeiro 08, 2005
Tudo que consegui escrever sobre Os Sonhadores e Edukators foi essa notinha aí em baixo. Mas o Eduardo Valente conseguiu muito mais na Contra Campo. Fica a dica de leitura!!
Os Sonhadores e Edukators são filmes, não complementares, mas que dialogam entre si. Vale a pena ver os dois e pensar em ideais, sonhos, juventude, ação e reação, conservadorismo e envelhecimento e o que mais for que os filmes evoquem em cada um. Talvez não filmes memoráveis cinemtograficamente, mas que valem o ingresso mesmo que para discordar.
sábado, janeiro 01, 2005
sábado, dezembro 11, 2004
Às vezes elas voltam... (as minhas críticas de filmes)
A Sétima Vítima ("Darkness"), de Jaime Balagueró
Sem dúvida, como já disseram algumas críticas, um bom mau filme de terror. Assim pode ser definido "A Sétima Vítima", cujo título ficaria melhor como a escuridão do original. É um bom filme pois cria climas, ainda que em vários momentos lembre outros filmes recentes como "O Sexto Sentido" e mesmo "O Chamado" e outros mais antigos como "O Exorcista", em função dos clichés de filmes de terror: criança sensitiva, dias contados, o horror enquanto versão de culpa pela negligência dos pais, e outros. Há ainda referência a "Os Outros", também espanhol. Mas tal uso dos lugares comuns não diminui o filme, pois todos parecem ser usados de forma honesta, sem querer enganar o espectador como sendo algo novo, importante (e talvez seja difícil fugir dos clichés quando um gênero volta a moda). O filme se assume um grande "trem fantasma", pronto a assustar o espectador, sem querer passar nenhuma mensagem, sem ser autoral . Mas ainda assim contando com um roteiro enxuto, sem buracos, que não se perde em explicar detalhes e, acima de tudo ( e felizmente), não tenta minimizar o inexplicável. E com um elenco que defende em seus papéis, ainda que de forma quase caricata mas que serve bem a proposta do trem fantasma onde pretende-se assustar e não filosofar. Cheio de sombras, cantos escuros, com sustos simples, parece um bom filme de terror, não? Mas é mau, mau, muito mau, como um trem fantasma que não acaba. E essa coragem de ser mau talvez seja a característica, senão original, pelo menos muito interessante do filme. Filme pra sair angustiado (nisso pode lembrar "Olhos Famintos") e com medo de ver de novo(e com medo da existência da maldade)...
A Sétima Vítima ("Darkness"), de Jaime Balagueró
Sem dúvida, como já disseram algumas críticas, um bom mau filme de terror. Assim pode ser definido "A Sétima Vítima", cujo título ficaria melhor como a escuridão do original. É um bom filme pois cria climas, ainda que em vários momentos lembre outros filmes recentes como "O Sexto Sentido" e mesmo "O Chamado" e outros mais antigos como "O Exorcista", em função dos clichés de filmes de terror: criança sensitiva, dias contados, o horror enquanto versão de culpa pela negligência dos pais, e outros. Há ainda referência a "Os Outros", também espanhol. Mas tal uso dos lugares comuns não diminui o filme, pois todos parecem ser usados de forma honesta, sem querer enganar o espectador como sendo algo novo, importante (e talvez seja difícil fugir dos clichés quando um gênero volta a moda). O filme se assume um grande "trem fantasma", pronto a assustar o espectador, sem querer passar nenhuma mensagem, sem ser autoral . Mas ainda assim contando com um roteiro enxuto, sem buracos, que não se perde em explicar detalhes e, acima de tudo ( e felizmente), não tenta minimizar o inexplicável. E com um elenco que defende em seus papéis, ainda que de forma quase caricata mas que serve bem a proposta do trem fantasma onde pretende-se assustar e não filosofar. Cheio de sombras, cantos escuros, com sustos simples, parece um bom filme de terror, não? Mas é mau, mau, muito mau, como um trem fantasma que não acaba. E essa coragem de ser mau talvez seja a característica, senão original, pelo menos muito interessante do filme. Filme pra sair angustiado (nisso pode lembrar "Olhos Famintos") e com medo de ver de novo(e com medo da existência da maldade)...
sábado, dezembro 04, 2004
Saudade Patológica
No dia em que eu não for mais
Pode ser que tudo mais não faça diferença
Mas agora, enquanto ainda sou
Não posso evitar a estranha sensação
De sentir saudades de toda beleza inerente ao mundo
e aos seres, principalmente os ditos humanos
Não faz sentido
Pois ainda vivo tudo aquilo de que tenho saudades
Mas talvez seja o medo cético
De nem mesmo saudades sentir
Quando me acabar o tempo nesse pequeno planeta
E assim vou perdendo a felicidade completa
Por sentir saudades antes do tempo
No dia em que eu não for mais
Pode ser que tudo mais não faça diferença
Mas agora, enquanto ainda sou
Não posso evitar a estranha sensação
De sentir saudades de toda beleza inerente ao mundo
e aos seres, principalmente os ditos humanos
Não faz sentido
Pois ainda vivo tudo aquilo de que tenho saudades
Mas talvez seja o medo cético
De nem mesmo saudades sentir
Quando me acabar o tempo nesse pequeno planeta
E assim vou perdendo a felicidade completa
Por sentir saudades antes do tempo
"O que diferencia o impossível do difícil? A questão parecia-lhe importante, quase essêncial pois dela dependiam as decisões que estava por tomar. Precisava resolver se valia apena tentar ou se, sendo impossível seu desejo, apenas lhe restava resignar-se. Mas sua pergunta permanecia sem resposta, por mais que pensasse, discutisse, procurasse a resposta na filisofia, na ciência ou na fé. Queria acreditar, na verdade, que alguma lei resolveria por ela sua vida, determiando o que fazer, desejar, amar. Mas ao mesmo tempo questonava cada uma das leis humanas que poderiam cercear seu querer e amenizar a angústia que lhe era inerente. A liberdade, então, de pensar, decidir, querer tinha por preço a angústia de se saber livre e temer estar só. Mas não eram exatamente a angústia e o medo da solidão que movimentavam seu ser? Não era pelos momentos em que se sentira completa, acompanhada na imensidão, que estava disposta a correr os riscos inerentes de querer o impossível e assim acreditar que era apenas difícil? Se "assim é o que assim lhe parece", já tinha sua resposta, por mais que quisesse duvidar de si mesma, por mais que fosse manter-se a procura de uma certeza ou verdade absoluta. Ainda que duvidasse que tais existissem, seria a procura de sua vida. Mas no meio tempo tinha de viver e correr os riscos de ter, ou não, o impossível."
domingo, novembro 28, 2004
Esboço de um roteiro de Comédia Romântica Medieval (público alvo: mulheres de todas as idades. Com possibilidade de virar uma série, ao estilo Sissi.)
Queria escrever uma história romântica. Com uma donzela a espera de um herói. Mas sua donzela teimava em resolver seus problemas antes que seu herói pudesse ajudá-la. Este também encontravasse a maior parte do tempo perdido em dúvidas e preferia se enamorar das personagens secundárias do romance a cortejar a donzela que tanto admirava. Dessa forma, a donzela não tinha porque esperar pelo herói que na realidade ansiava, pois acreditava que este já tinha pretendentes demais e que ela não poderia se comparar a elas. Pensar não era atributo tão sedutor quanto saber pedir ajuda quando não se necessitava. E ela não era capaz disso. E era exatamente isso que a fazia mais admirável aos olhos do herói. Ao mesmo tempo que a fazia mais distante, pois uma mulher tão inteligente, independente, bonita e charmosa não poderia precisar de um herói que só servia para resgatar donzelas perdidas na floresta. E ela era inteligente o bastante para sempre encontrar o caminho de volta. Mas na verdade, sempre ficava na floresta mais tempo que o necessário, esperando que talvez ele fosse resgatá-la. Pois admirava nele para além da força e beleza, que todas enxergavam, também a determinação, o senso de crítica e de humor e sua sensibilidade. Sabia que ele escrevia e morreria só para ver seus versos. Talvez morresse mesmo quando descobrisse que a maior parte era sobre ela. Seus olhos, cabelos, suas mãos, que ele tocara apenas uma vez, a voz que se atrevia a cantar versos e falar de coisas que iam além de tecidos e jóias. Ele escrevia sobre ela, sem saber que ela também fazia versos sobre ele. E assim, a história se perdia cada vez mais num romance aparentemente impossível entre dois personagens que se amavam mas não sabiam. Até o pai da donzela já estava preocupado, com sua primeira filha tão cheia de dotes poderia estar ainda solteira? Decidiu mandá-la a outro reino, para expandir seus horizontes, conhecer novos pretendentes. A donzela aceitou bem a proposta, começava a pensar que precisava de algo novo além dela mesma. E foi para o outro reino, onde, ao se ver livre do estigma de donzela reclusa, pode ser quem realmente queria. Enfeitou-se, se atreveu a participar das quadrilhas no bailes, se fez ser olhada e aceitou o olhar de príncipes, heróis e camponeses. Enamorou-se de um ou dois deles... Enquanto o herói aprendia que deveria escolher o que queria. Ouvia rumores do sucesso da donzela no reino vizinho e sentia uma raiva estranha por isso. Como poderia ter raiva de saber que ela estava mostrando a todos aquilo que ele sempre soubera haver dentro dela? Precisou ir até o reino e vê-la conversando com o príncipe para entender seus ciúmes. Pensou em desistir, nem falar com ela, mas ela o viu. E imbuída da força que acabara de descobrir em si mesma, resolveu seduzi-lo, ou pelo menos tentar. Enquanto ele, tomado de ciúmes, de um sentimento de propriedade para com ela, resolveu que a conquistaria. E a partir daí, o resto é história...
Queria escrever uma história romântica. Com uma donzela a espera de um herói. Mas sua donzela teimava em resolver seus problemas antes que seu herói pudesse ajudá-la. Este também encontravasse a maior parte do tempo perdido em dúvidas e preferia se enamorar das personagens secundárias do romance a cortejar a donzela que tanto admirava. Dessa forma, a donzela não tinha porque esperar pelo herói que na realidade ansiava, pois acreditava que este já tinha pretendentes demais e que ela não poderia se comparar a elas. Pensar não era atributo tão sedutor quanto saber pedir ajuda quando não se necessitava. E ela não era capaz disso. E era exatamente isso que a fazia mais admirável aos olhos do herói. Ao mesmo tempo que a fazia mais distante, pois uma mulher tão inteligente, independente, bonita e charmosa não poderia precisar de um herói que só servia para resgatar donzelas perdidas na floresta. E ela era inteligente o bastante para sempre encontrar o caminho de volta. Mas na verdade, sempre ficava na floresta mais tempo que o necessário, esperando que talvez ele fosse resgatá-la. Pois admirava nele para além da força e beleza, que todas enxergavam, também a determinação, o senso de crítica e de humor e sua sensibilidade. Sabia que ele escrevia e morreria só para ver seus versos. Talvez morresse mesmo quando descobrisse que a maior parte era sobre ela. Seus olhos, cabelos, suas mãos, que ele tocara apenas uma vez, a voz que se atrevia a cantar versos e falar de coisas que iam além de tecidos e jóias. Ele escrevia sobre ela, sem saber que ela também fazia versos sobre ele. E assim, a história se perdia cada vez mais num romance aparentemente impossível entre dois personagens que se amavam mas não sabiam. Até o pai da donzela já estava preocupado, com sua primeira filha tão cheia de dotes poderia estar ainda solteira? Decidiu mandá-la a outro reino, para expandir seus horizontes, conhecer novos pretendentes. A donzela aceitou bem a proposta, começava a pensar que precisava de algo novo além dela mesma. E foi para o outro reino, onde, ao se ver livre do estigma de donzela reclusa, pode ser quem realmente queria. Enfeitou-se, se atreveu a participar das quadrilhas no bailes, se fez ser olhada e aceitou o olhar de príncipes, heróis e camponeses. Enamorou-se de um ou dois deles... Enquanto o herói aprendia que deveria escolher o que queria. Ouvia rumores do sucesso da donzela no reino vizinho e sentia uma raiva estranha por isso. Como poderia ter raiva de saber que ela estava mostrando a todos aquilo que ele sempre soubera haver dentro dela? Precisou ir até o reino e vê-la conversando com o príncipe para entender seus ciúmes. Pensou em desistir, nem falar com ela, mas ela o viu. E imbuída da força que acabara de descobrir em si mesma, resolveu seduzi-lo, ou pelo menos tentar. Enquanto ele, tomado de ciúmes, de um sentimento de propriedade para com ela, resolveu que a conquistaria. E a partir daí, o resto é história...
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