terça-feira, abril 22, 2008

My Blueberry Nights (Um Beijo Roubado)
Wong Kar Wai, 2007

Às vezes é necessário que nos afastemos de nosso lugar de origem para que possamos ter uma outra percepção do que nos rodeia. Às vezes estar num outro lugar que nos é estranho, que não causa a familiaridade da origem permite a emergência de algo novo em nós mesmos. Talvez o já conhecido evoque mais racionalização e crítica (mas não sem sentimento), e quando estamos diante de algo novo apareça mais o afeto puro, ainda sem muita possibilidade de crítica, pois ainda não conhecemos aquilo que nos aparece.
O (primeiro) filme americano de Wong Kar Wai me fez pensar nisso. Talvez por ter me parecido seu filme mais sentimental, de um diretor cujos filmes sempre me pareceram marcados por sentimentos enormes, mas reprimidos, impossíveis. 2046, seu filme anterior, me fez pensar exatamente na (im)possibilidade do amor. Mas este My Blueberry Nights (cujo título brasileiro é simpático á doçura do filme, na verdade os títulos brasileiros dos filmes de Wong Kar Way são sempre bons) fala exatamente da busca de possibilidades. Começa com um fim de relacionamento, que leva ao um encontro. Norah Jones (que funciona como atriz, sua inexperiência parece ser utilizada pelo diretor exatamente para marcar a experiência de uma jovem inocente, no sentido de não prejulgar, criticar, de tomar as experiências como algo novo, como uma primeira vez, inexperiência cinematográfica vira inocência de olhar sobre o mundo) e Jude Law (maravilhoso, sempre, charmoso, sempre) se conhecem em meio a outras histórias de cada um, principalmente a dela. Mas Norah/Elizabeth vai embora, fazendo talvez a escolha menos usual, tal qual escolher a blueberry pie do título. Se aventura sozinha na América, não fugindo de uma nova história de amor (mantém cartões postais que contam sua vida para Jude/Jeremy), mas como se fosse necessário procurar algo de si mesma ao se aventurar, para poder retornar e começar um novo amor. Para que este seja realmente novo. A aventura, o risco, está na viagem, na solidão, na falta de certezas marcadas. Mas o que aparece nessa viagem são os encontros de outras pessoas, de outras possibilidades, espelhos que permitem a Elizabeth se reconhecer e descobrir nas diferenças de reflexo. E ao final, bem, ao final descobrimos nós que Wong Kar Wai também se permitiu uma nova escolha, talvez um momento de se reconhecer no reflexo do espelho americano e fazer um conto mais doce que os seus anteriores. Talvez um olhar inocente sobre uma outra cultura tenha permitido uma expressão mais sentimental que reprimida (ainda que essa repressão fizesse transbordar o sentimento, espelhando, permitindo identificação e encantamento...). Diferente, ainda que sendo a mesma base. Agridoces noites, mais doces... :-)

domingo, abril 20, 2008

Um dia, assim, meio do nada, quase sem querer (mas querendo, sempre querendo), você conhece alguém interessante. Não precisa ser o menino mais lindo, o homem mais charmoso e inteligente da festa. Mas é ele quem chama a sua atenção, ele faz você imaginar e querer. Ao mesmo tempo que faz não saber o que falar, não saber sustentar um olhar. Situações de comédia romântica. Mas o outro pode não entender de comédias românticas e te (me) achar uma simples idiota.
Coisas da atração, esse estranho poder interno que nos permite o encantamento com o outro e sobre o qual eu não tenho mínimo controle. Mas vivo a tentar controlar...


domingo, março 16, 2008

O tempo segue seu rumo
ao futuro
A vida se vai
ao além
Fico eu a lidar
com o presente e o aqui
São tudo o que tenho

"...
Tenho o que ficou
e tenho sorte até demais
como sei que tens também..."
Andéia Dória, Legião Urbana

sábado, março 15, 2008




You Act Like You Are 25 Years Old



You are a twentysomething at heart. You feel like an adult, and you're optimistic about life.

You feel excited about what's to come... love, work, and new experiences.



You're still figuring out your place in the world and how you want your life to shape up.

The world is full of possibilities, and you can't wait to explore many of them.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Tenho uma fitinha azul do Senhor do Bonfim amarrada em meu pulso esquerdo. Daquelas que são oferecidas aos montes em Salvador, ao troco de que o turista deixe algum troco pelas fitinhas. Ainda que a elas não sejam vendidas e sim oferecidas, no final pedem a "ajuda".
Eu já fui a Salvador, mas minha fitinha azul no pulso esquerdo não me foi presenteada lá. Eu até ganhei uma lá, rosa, está amarrada em uma bolsa que usava no dia. As coisas das quais somos capazes de lembrar... Um determinado momento e uma fitinha rosa.
Mas a rosa está na bolsa, no pulso tenho a azul. E quando amarrei a azul, aqui no Rio, oferecida como lembrança por uma amiga que fora a Salvador mais de um ano depois da minha estada, bem, quando amarrei a fita eu fiz o que me disseram para fazer.
Eu fiz pedido. Um desejo.
Foi por isso que em Salvador, a terra das tais fitinhas, não amarrei nenhuma ao pulso. Fui sensata em não fazer pedidos. Eu já tivera minha cota de desejos naquele momento, melhor não exagerar. E de qualquer forma, ter uma esperança de desejo amarrada ao seu pulso, como lembrança concreta do desejo, parece um fardo. E desejos não devem ser fardos, pesos, ainda que sejam trabalhosos.
E eu ainda tenho essa fitinha azul, já desbotada, puída, amarrada ao meu pulso, três anos após o amarramento ao pedido. Nem o desejo se realizou, nem eu tive coragem de arrancar a fitinha. Isso vindo de alguém que discute a fé deixa claro que há algo de místico e sagrado que persiste à lógica e à ciência.
Persiste também o desejo.
Já quis arrancar a fita, por raiva, por não me importar, por não combinar com a roupa.
Mas ela persiste. Já puída. Até quando?

terça-feira, fevereiro 05, 2008

"...
o tempo passou, irão se casar
duas Marias da mesma raiz
Luisa com Napoleão
e Leopoldina será nossa imperatriz
será também nome de trem
que passa em Ramos a nossa estação
onde imperam Marias e Joaõs
..."
Samba enredo do GRES Imperatriz Leopoldinense, 2008

sábado, fevereiro 02, 2008

Porque é Carnaval mas sempre existem possibilidades...

O pessoal da Contracampo e suas ótimas críticas/análises cinematográficas... Em especial essa de Desejo e Reparação está perfeita: http://contracampo.com.br/90/critatonement.htm

domingo, janeiro 27, 2008

Picture yourself on a train in a station
With plasticine porters with looking glass ties
Suddenly someone is there at the turnstile
The girl with kaleidoscope eyes
Lucy in the sky with diamonds, Beatles

"Sombras de Goya" foi visto por mim como um filme sobre as ideologias e o poder, como o poder está sempre nas mãos de um grupo de pessoas que se identificam e fortalecem graças a uma ideologia. E se alguém está no poder, sobram outros alguéns que não estão e brigarão para retornar ou lá chegar. Mas também há um certo grupo de pessoas que está sempre à margem dessa luta do poder. Alguns são completamente segregados quer seja pela religião, quer pela razão ou por alguma outra forma de discriminação (às vezes a burrice segrega). Outros se colocam à margem por escolha, pela arte, por uma ética. Ainda que, como mostrado no filme, essa arte possa servir a qualquer poder, ao final não serve a nenhum, tendo como meta não uma ideologia, mas sim a estética, o belo, a ética do belo.
E hoje, como sempre na história, um grupo dominante (em qualquer área em que haja relação de poder) tenta manipular e homogenizar a todos e a seus pensamentos, talvez na tentativa simples de se manter no poder. Não mais segregamos hereges e loucos, tomamô-los no seio da comunidade e tenta-mos acceitá-los através da cura.
Mas também hoje, e ainda, a arte serve como resistência ao poder, ao domínio. Se a contra-cultura foi sim fagocitada pelo poder liberal-capitalista, se virou objeto de mercado, ela continua a deixar sua influência, por baixo de toda a massificação que lhe foi injetada. Quando se assiste a um musical em inglês, com musicas de um famoso grupo inglês da década de 1960, com arranjos que em alguns momentos remetem a antigos musicais americanos e em meio a tudo isso que parece já tão massificado encontra-se a beleza, a alegria e algo que permite enxergar o mundo, pensá-lo, talvez aí tenhamos mais uma vez a demonstração da estética e da ética da arte. O humano ainda encontra seus caminhos, para o bem e para o mal.
Belo "Beatles num céu de diamantes".

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird, Beatles

domingo, dezembro 30, 2007

O imaginário, as fantasias que criamos, são parte integrante do chamado aparelho psíquico, daquilo que somos. Ainda que por vezes possam parecer descartáveis, infantis ou bobas, e até incomodem, elas são também inerentes ao que somos e apontam para algo do desejo, da verdade de cada um. Tanto que tendem a ser guardadas com carinho, como aquilo que nos lembra do que realmente deveria ser (e os sonhadores, os artistas são sempre reconhecidos, lembro aqui de John Lennon). Ou também podem se tornar obsessões...
Em "The Perverts Guide To Cinema" Slavoj Zizek fala da fantasia a partir do filme Um Corpo que Cai (Vertigo), citando como a fantasia do personagem de James Stuart de reencontrar a mulher amada, então morta, se transforma em uma obsessão. Em determinado ponto, na tentativa de tornar sua fantasia realidade, ele simplesmente transforma uma Kim Novak na outra (que também era interpretada por Kim, talvez porque no final o objeto sempre seja um só?). Mas a realização da fantasia ganha ares de pesadelo para nós espectadores, como explica Zizek, há sempre algo de estranho, bizarro na realização plena de uma fantasia. Mas naquele momento James Stuart não percebe isso, apenas nós...
Ainda Zizek, em seu texto Lacan as Viewer of Casablanca, fala sobre essa dualidade da fantasia, que nesse texto fica sob o olhar de um Ideal do Eu que precisa esconder o conteúdo sexual ou agressivo, em suma desejante, da fantasia e ainda daquele de um Super Eu que irrompe em angústia para fazer recordar exatamente do que falta nessa fantasia "asséptica" do Ideal do Eu. A fantasia fica então entre o aceitável cheio de angústia pelo que falta e o bizarro da realização plena.
Não é fácil, portanto, ser sujeito desejante. Há que se escolher todo o tempo, sabendo sempre que algo se perde na escolha. Há ainda a saída da sublimação, da arte. Por isso escrever palavras, talvez uma tentiva de exorcizar fantasias desejantes que tentam o ser humano.
Uma última citação: Sombras de Goya (Goya´s Ghosts), novo filme de Milos Forman, fala também de tentação, desejo, loucura, poder, arte e sublimação.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Um fim de Natal com boas comédias românticas inglesas...

http://www.youtube.com/watch?v=IyCsYuKnvWk

Com o tempo descobre-se como alguns filmes definiram de alguma forma o que somos e acreditamos. Há que se descobrir isso, para aceitar, mudar.
Mas qual o problema de querer um Hugh Grant declarando amor in the rain? ;-)

Que o Natal tenha sido bom!
"All I want(ed) for Christmas is(was)..."
someone to tell me...
"But I will be very sorry
to drive away from you."

(citação musical e frase do Primeiro Ministro ambas do filme Love Actually/Simplesmente Amor)

domingo, novembro 04, 2007

Ás vezes parece que a vida se escreve como um livro, como numa frase cliché. Momentos em que até parece que tudo vai começar a ter sentido. Talvez não sentido, mas quem sabe, quem sabe tudo pode começar a acontecer. Ou não. Ah, as ilusões que se cria. Para quem no fundo ainda sonha ser uma estrela caída a ser resgatada por um Tristan... Mas anda encontrando mais ironia que fantasia do destino.
Nem parece que a gente cresce.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley


Fiquei fascinada com o livro, pensando nas similaridades de nosso mundo moderno, consumista, de emoções fáceis e superficiais mas ainda salvo pelos livros, pela arte, pela oportunidade de uma individualdiade e de escolhas ainda não condicionadas (ou não?). Pensei no cinema, nos filmes simples quase sensíveis, nos outros filmes mais instigantes ao pensamento que às emoções fáceis. Pensei em Goddard, como seus fimes aos poucos começam a fazer sentido para mim e na sentença emblemática de seu "Nossa Música": matar um homem para defender uma idéia não é defender uma idéia. É matar um homem. E ainda em Bergman, em O Ovo da Serpente. Pensei em outros filmes que talvez transitem num estranho meio termo. Pensei em Hithcock como esse meio termo, que sabidamente manipulava o espectador mas ao mesmo tempo transbordava algo para além da mera manipulação de sustos.

Pensei em Shakespeare, claro. Pensei em poesia.

Pensei na liberdade para escolher, ainda que a solidão e a culpa, como faz o Selvagem John.

Pensei no "bem estar" e na OMS: "saúde é o bem estar bio-psico-social" e me assustei com a semelhança, com a possibilidade de que a saúde seja uma imposição. Não o são as vacinas? Sempre tendo em vista um bem maior, sempre com base no progresso e na ciência. Não é a epidemiologia fruto do progresso? E a clínica, clássica, fruto do contato entre seres humanos, não está perdendo campo, havendo sempre um novo exame, um novo guideline, fluxograma, que bem defina condutas médicas tão bem e claramente que talvez um dia um computador seja médico? Não pode hoje a Psiquiatria, minha especialidade tão cara, melhorar dores e dúvidas antes espirituais, hoje doença chamada "depressão"? Não tendemos a entender alterações de humor com espectros de bipolaridade que podem ser devidamente corrigidos com doses adequadas de Depakene ou algum outro estabilizador do humor? Estabilizamos humores, organizamos pensamentos. Curamos ou aliviamos sofrimentos mentais?
Não duvido do sofrimento humano, talvez inerentemente humano. E tenho dúvidas quanto ao caráter divino e redentor deste sofrimento.
Mas, talvez não duvide da redenção e da divindade quando penso nelas enquanto criações também inerentemente humanas. Quando penso que a liberdade permite que o humano escolha sentir-se digno de ser divino, de se redimir, de escapar aos seus sofrimentos, de alienar-se. Mas por escolha, certa ou errada, e não por imposição de outro humano que "sabe mais". E quem sabe mais de alguém que o próprio? (E quem sabe tanto de si mesmo, sem dúvidas, sem reticências, para arvorar-se a decidir com certeza científica pelos outros o que talvez mal decida para si mesmo?).
"...
E os seus tristes inventores
já são réus - pois se atreveram
a falar em liberdade
Liberdade, essa palavra
que o soho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."
Cecília Meirelles in O Romanceiro da Inconfidência
Poderá haver um futuro em que não se sonhe com a liberdade, pelo simples fato de não mais sonhar? E ao não sonhar, seremos ainda humanos? Teremos realmente nascido? E morreremos realmente? align="justify">
Morrer!
Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?
William Shakespeare in Hamlet


Pensamentos a posteriori...
Em AI, Spielberg, influenciado por Kubrick e baseado em livro de Brian Aldiss, nos mostra um futuro de robôs que sonham sonhar, para serem então humanos. E nós sonhamos controlar, para sermos robôs?

quinta-feira, julho 05, 2007



Isso (testezinhos) eu fazia no início desse blog, em 2002. Mas estou numa semana muito Lost, só que apaixonada pelo Dr. Jack Shepard e não pro Swayer... ;-)

quinta-feira, junho 21, 2007

Pensamentos e ensaios
Qual é o lugar da clínica, da saúde pública em nosso país?
Qual a importância da saúde? De manter o tal “bem estar bio-psico-social”?
Quando comecei a faculdade de medicina perguntava as pessoas no posto de saúde do Barreto o que elas entendiam como “saúde”. Não me lembro das respostas, mas não eram as da OMS.
Hoje, ainda trabalhando na assistência de saúde pública, especificamente psiquiátrica, vejo as pessoas procurarem um serviço médico, isto é, um centro de atenção “psicosocial” (porque será que tiraram o bio?) por diversas questões psicológicas, psiquiátricas, por sofrimentos diversos que nem patológicos são. Mas quem disse que sofrimento tem que ser patológico? E aí só o patológico é que deve ser tratado? Talvez sim. Mas o que fazer com os outros sofrimentos humanos? Será isso responsabilidade da saúde pública? Se não, de quem? Do indivíduo? Mas e a responsabilidade do governo em oferecer serviços que são pagos pelos impostos?
E o que é feito com os impostos? Saindo da esfera da saúde pública e começando na saúde dentro da Justiça descubro um outro mundo. Sem ostentações, sem excessos, mas com essencial para um bom trabalho. Bons salários, boa infra-estrutura, respeito e reconhecimento do trabalho feito. Não há tudo, não é perfeito. Mas que diferença da falta quase onipresente da saúde. Falta de verbas, de medicamentos, de boas condições de trabalho (salvo as exceções temos serviços com condições no máximo razoáveis de trabalho), de profissionais, por vezes de respeito e de reconhecimento. Reconhecimento este que se faz ver nos salários muito aquém daqueles da justiça (e de outras esferas públicas). E não falo aqui de equiparar a salários do executivo, nem dos altos escalões. Mas posso perguntar porque a base da comparação, que é uma arbitrariedade, uma construção, é o salário mínimo. Mínimo de que? Da cesta básica? Então nosso direito básico é de alimentarmo-nos? Se aceitamos tal base como justa porque será que aceitamos os salários 50 vezes maiores? Nossos deputados, senadores são assim tão melhores que nós? E nossos trabalhadores não o são, não valem isso? Não só na saúde, mas também na educação, não valem salários dignos de serem além do básico melhorado?
De repente me vejo a pensar porque só questiono os salários de funcionários públicos. Estarão estes acima dos outros? Ou talvez o mercado privado tenha outras lógicas de valorização, e muitas vezes também de desvalorização quando não exploração. Sujeitos portanto a fiscalização, denúncias. Mas me parece que no mercado privado fica mais claro, para o bem e para o mal, que cada um defende seus direitos. O problema é que alguns têm mais armas para defesa e ainda para ataque. Mas no serviço público temos a tal máquina pública a qual deveria servir aos cidadãos, os quais constituem o país e o sustentam, já que não estamos aqui por benevolência de algum dono do Brasil que nos permite aqui residir. Frase clichê mas o país é seu povo. Então me pergunto: é o povo que determina que funcionários da saúde devem ganhar pouco? É o povo que determina o salário mínimo (comparado ao qual nem todos da saúde ganham tão pouco)? É o povo, essa entidade onipresente de não sei que presença, que desvaloriza a si e aqueles que dele cuidam? Será então a saúde um valor desvalorizado?
Ou será que máquina pública reflete bem menos do que o esperado os desejos dos indivíduos que a constituem e mantêm?

domingo, junho 10, 2007

Duas pseudo-críticas por serem escritas, desde a primeira do ano que foi devidamente escrita e postada. Meses sem escrever, lendo, vendo, ouvindo. Tantas coisas...
Mas hoje, o recesso de Los Hermanos. Um show belo na sexta-feira. A sensação de tristeza agora que não tem mais show por tempo indeterminado. A escrita ainda aparece no lugar de catarse, de filmes a comentar, de um show, de uma tristeza pelo recesso/pseudo-fim (ou será?) da banda favorita.
Mas eles falam por eles mesmos. E talvez por isso tantos adoradores, por isso 3 dias de Fundição lotada cantando em coro, por isso tanto frisson pelo recesso, jogada de marketing ou não, talvez apenas um tempo de verdade para eles.

"não faz disso esse drama essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber"
Primeiro Andar, 4

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Primeiro filme do ano: Dias Selvagens, de Wong Kar Wai.
Cineclube Odeon. Pré-estréia do filme que é o "primeiro" da mezzo-trilogia continuada com "Amor á flor da pele" e "2046". O último foi um filme catártico de 2006. "Dias Selvagens" teve menor apelo emocional, mas ainda assim é um belo filme sobre o desejo. Esse que nos domina, por mais que tentemos domá-lo. Esse que retorna do nada (será?) e nos angustia, quando ainda não somos capazes de dar conta dele. De bem aceitá-lo. Mas esse mesmo desejo é só nosso, de mais ninguém. Não vem de um além, mas de dentro de algum lugar que está em nós. Por mais que não saibamos o que fazer com ele, é nosso, e a angústia sobrevem da incapacidade de aceitar o que é nosso.
Por mais que se tente, é impossível negar o desejo, amor, paixão. Tantos nomes para uma só coisa: a necessidade de não se sentir só ao longo do nosso tempo no universo.
E o tempo é um outro fator importante no filme (ainda falava sobre o filme?). Pois o desejo não conhece tempo e pode ser satisfeito (parcialmente) em 1 minuto. Ou pode o amor surgir de um momento, de um gesto, de um olhar.
O que parece permanente é a necessidade. Que sempre levará a a novos desejos, amores paixões. Cabe apenas escolher o objeto amado. Escolher????

quarta-feira, novembro 22, 2006

A Última Noite é um filme sobre o fim de um programa de rádio ao vivo. Mais simpelsmente, é um filme sobre o fim e sobre encarar o fim com dignidade, mais que isso, encará-lo sabendo que iria chegar e que nesse meio tempo, tudo valeu à pena. Na verdade é um filme sobre a vida, o fim sendo só o detalhe que torna viver ainda mais importante. Filme bonito, algo melancólico, belas atuações, belos momentos de vida, de personagens. Mais ainda agora, após o falecimento de Robert Altamn, quando o filme assume mais suas características e fica a parecer um quase epitáfio.
Tem crítica na contra campo.
Mas mais que isso, tem os filmes, a serem vistos e revistos, pensados, sentidos. Isso são as obras dos artistas, ficam além do tempo da vida, ficam e marcam outras vidas. É uma forma de entender transcendência.

domingo, setembro 24, 2006

Despensar

O que diz um ato falho?
O que digo eu ao dizer que despenso?

Digo que não penso?
Ou que penso diferente?
Ou que desejo não pensar?

Não pensar é sempre um desejo
O desejo de abdicar do retorno constante das palavras
Essas nas quais me perco, sem dizer
O que, como na música, mais que palavras poderiam dizer.
Não dizendo.

domingo, setembro 03, 2006

Eu quero um Sonny Crocket pra mim...

Miami Vice
2006, Michael Mann

Primeiro, eu não assisti a série de tv Miami Vice. Tenho uma vaga lembrança do que era. Nem sabia que a música "In the air tonight" tocava na série. Quando tocou nos créditos achei que era mais um momento oitentista do filme. Um amigo me explicou que era uma referência direta a série.
Então, não vi Miami Vice como uma adaptação, mas como um filme baseado numa história que, isso me lembro, tinha fortes cores oitentistas. Talvez uma das séries que ajudou a moldar a década. Dessa forma só posso dizer que gostei muito do filme.
Por manter um clima anos oitenta mas adaptado ao século 21. parece estranho, e parece estranho no filme. É uma sensação de dejá vü, sem referências diretas a década de oitenta (nada a ver com as festas Ploc da vida), mas de forma enviesada, relembrando algumas características. Interessante notar, por exemplo, que a Miami do século 21 não é infiltrada de violência como em 80, se ela é muito mais clean, virtual, tecnológica. Entretanto, ao levar a ação a países da América Latina, Michael Mann consegue retomar a antiga violência. Bairros pobres, homens armados, atitudes violentas mas com ilhas de tecnologia semelhante à de Miami. Surpreende a forma como o diretor e roteirista (e produtor da série original) mostra de forma tão pouco caricata essa realidade "nossa".
O que não surpreende são a fotografia e a montagem. Como em outros filmes de Mann, em especial O Informante e ainda Colateral, estes aspectos da direção são primorosos. A captação da luz, o uso das lentes, a impressão de enquadramento desfocado, dão um toque especial a um filme que seria ?só? de ação. Desta forma Miami Vice é um pouco mais que entretenimento, há um tratamento de imagem diferenciado no filme, perceptível, mas não necessariamente gratuito. As imagens fazem parte e diferença no filme. Lembrando que cinema é, antes de tudo (e do próprio roteiro), imagens em movimento!
A trilha sonora segue o clima anos 80 sem ser anos 80. Moby e Audioslave dão um clima anos 80 revisitado pelo século XXI. Mais uma vez, nada de Festa Ploc, nada de simples regravação e sim um trabalho sonoro que remete á algo retrô.
Agora, os atores. Jamie Foxx nem precisa falar, o homem é ótimo ator. Mas Collin Farrel faz um uso primoroso de uma certa canastrice. Seu Sonny Crocket é qualquer coisa entre o bom canalha e o bom policial, com charme. Muito, muito charme. Suas cenas com Gong Li transbordam sensualidade e afetividade. Basta dizer que ao final do filme eu só pensava: "eu quero o um Sonny pra mim".
Sem comparações com Don Johnson, pois nem lembro como era o seu Sonny. Mas não creio que fosse melhor...