terça-feira, abril 22, 2008

My Blueberry Nights (Um Beijo Roubado)
Wong Kar Wai, 2007

Às vezes é necessário que nos afastemos de nosso lugar de origem para que possamos ter uma outra percepção do que nos rodeia. Às vezes estar num outro lugar que nos é estranho, que não causa a familiaridade da origem permite a emergência de algo novo em nós mesmos. Talvez o já conhecido evoque mais racionalização e crítica (mas não sem sentimento), e quando estamos diante de algo novo apareça mais o afeto puro, ainda sem muita possibilidade de crítica, pois ainda não conhecemos aquilo que nos aparece.
O (primeiro) filme americano de Wong Kar Wai me fez pensar nisso. Talvez por ter me parecido seu filme mais sentimental, de um diretor cujos filmes sempre me pareceram marcados por sentimentos enormes, mas reprimidos, impossíveis. 2046, seu filme anterior, me fez pensar exatamente na (im)possibilidade do amor. Mas este My Blueberry Nights (cujo título brasileiro é simpático á doçura do filme, na verdade os títulos brasileiros dos filmes de Wong Kar Way são sempre bons) fala exatamente da busca de possibilidades. Começa com um fim de relacionamento, que leva ao um encontro. Norah Jones (que funciona como atriz, sua inexperiência parece ser utilizada pelo diretor exatamente para marcar a experiência de uma jovem inocente, no sentido de não prejulgar, criticar, de tomar as experiências como algo novo, como uma primeira vez, inexperiência cinematográfica vira inocência de olhar sobre o mundo) e Jude Law (maravilhoso, sempre, charmoso, sempre) se conhecem em meio a outras histórias de cada um, principalmente a dela. Mas Norah/Elizabeth vai embora, fazendo talvez a escolha menos usual, tal qual escolher a blueberry pie do título. Se aventura sozinha na América, não fugindo de uma nova história de amor (mantém cartões postais que contam sua vida para Jude/Jeremy), mas como se fosse necessário procurar algo de si mesma ao se aventurar, para poder retornar e começar um novo amor. Para que este seja realmente novo. A aventura, o risco, está na viagem, na solidão, na falta de certezas marcadas. Mas o que aparece nessa viagem são os encontros de outras pessoas, de outras possibilidades, espelhos que permitem a Elizabeth se reconhecer e descobrir nas diferenças de reflexo. E ao final, bem, ao final descobrimos nós que Wong Kar Wai também se permitiu uma nova escolha, talvez um momento de se reconhecer no reflexo do espelho americano e fazer um conto mais doce que os seus anteriores. Talvez um olhar inocente sobre uma outra cultura tenha permitido uma expressão mais sentimental que reprimida (ainda que essa repressão fizesse transbordar o sentimento, espelhando, permitindo identificação e encantamento...). Diferente, ainda que sendo a mesma base. Agridoces noites, mais doces... :-)

domingo, abril 20, 2008

Um dia, assim, meio do nada, quase sem querer (mas querendo, sempre querendo), você conhece alguém interessante. Não precisa ser o menino mais lindo, o homem mais charmoso e inteligente da festa. Mas é ele quem chama a sua atenção, ele faz você imaginar e querer. Ao mesmo tempo que faz não saber o que falar, não saber sustentar um olhar. Situações de comédia romântica. Mas o outro pode não entender de comédias românticas e te (me) achar uma simples idiota.
Coisas da atração, esse estranho poder interno que nos permite o encantamento com o outro e sobre o qual eu não tenho mínimo controle. Mas vivo a tentar controlar...


domingo, março 16, 2008

O tempo segue seu rumo
ao futuro
A vida se vai
ao além
Fico eu a lidar
com o presente e o aqui
São tudo o que tenho

"...
Tenho o que ficou
e tenho sorte até demais
como sei que tens também..."
Andéia Dória, Legião Urbana

sábado, março 15, 2008




You Act Like You Are 25 Years Old



You are a twentysomething at heart. You feel like an adult, and you're optimistic about life.

You feel excited about what's to come... love, work, and new experiences.



You're still figuring out your place in the world and how you want your life to shape up.

The world is full of possibilities, and you can't wait to explore many of them.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Tenho uma fitinha azul do Senhor do Bonfim amarrada em meu pulso esquerdo. Daquelas que são oferecidas aos montes em Salvador, ao troco de que o turista deixe algum troco pelas fitinhas. Ainda que a elas não sejam vendidas e sim oferecidas, no final pedem a "ajuda".
Eu já fui a Salvador, mas minha fitinha azul no pulso esquerdo não me foi presenteada lá. Eu até ganhei uma lá, rosa, está amarrada em uma bolsa que usava no dia. As coisas das quais somos capazes de lembrar... Um determinado momento e uma fitinha rosa.
Mas a rosa está na bolsa, no pulso tenho a azul. E quando amarrei a azul, aqui no Rio, oferecida como lembrança por uma amiga que fora a Salvador mais de um ano depois da minha estada, bem, quando amarrei a fita eu fiz o que me disseram para fazer.
Eu fiz pedido. Um desejo.
Foi por isso que em Salvador, a terra das tais fitinhas, não amarrei nenhuma ao pulso. Fui sensata em não fazer pedidos. Eu já tivera minha cota de desejos naquele momento, melhor não exagerar. E de qualquer forma, ter uma esperança de desejo amarrada ao seu pulso, como lembrança concreta do desejo, parece um fardo. E desejos não devem ser fardos, pesos, ainda que sejam trabalhosos.
E eu ainda tenho essa fitinha azul, já desbotada, puída, amarrada ao meu pulso, três anos após o amarramento ao pedido. Nem o desejo se realizou, nem eu tive coragem de arrancar a fitinha. Isso vindo de alguém que discute a fé deixa claro que há algo de místico e sagrado que persiste à lógica e à ciência.
Persiste também o desejo.
Já quis arrancar a fita, por raiva, por não me importar, por não combinar com a roupa.
Mas ela persiste. Já puída. Até quando?

terça-feira, fevereiro 05, 2008

"...
o tempo passou, irão se casar
duas Marias da mesma raiz
Luisa com Napoleão
e Leopoldina será nossa imperatriz
será também nome de trem
que passa em Ramos a nossa estação
onde imperam Marias e Joaõs
..."
Samba enredo do GRES Imperatriz Leopoldinense, 2008

sábado, fevereiro 02, 2008

Porque é Carnaval mas sempre existem possibilidades...

O pessoal da Contracampo e suas ótimas críticas/análises cinematográficas... Em especial essa de Desejo e Reparação está perfeita: http://contracampo.com.br/90/critatonement.htm

domingo, janeiro 27, 2008

Picture yourself on a train in a station
With plasticine porters with looking glass ties
Suddenly someone is there at the turnstile
The girl with kaleidoscope eyes
Lucy in the sky with diamonds, Beatles

"Sombras de Goya" foi visto por mim como um filme sobre as ideologias e o poder, como o poder está sempre nas mãos de um grupo de pessoas que se identificam e fortalecem graças a uma ideologia. E se alguém está no poder, sobram outros alguéns que não estão e brigarão para retornar ou lá chegar. Mas também há um certo grupo de pessoas que está sempre à margem dessa luta do poder. Alguns são completamente segregados quer seja pela religião, quer pela razão ou por alguma outra forma de discriminação (às vezes a burrice segrega). Outros se colocam à margem por escolha, pela arte, por uma ética. Ainda que, como mostrado no filme, essa arte possa servir a qualquer poder, ao final não serve a nenhum, tendo como meta não uma ideologia, mas sim a estética, o belo, a ética do belo.
E hoje, como sempre na história, um grupo dominante (em qualquer área em que haja relação de poder) tenta manipular e homogenizar a todos e a seus pensamentos, talvez na tentativa simples de se manter no poder. Não mais segregamos hereges e loucos, tomamô-los no seio da comunidade e tenta-mos acceitá-los através da cura.
Mas também hoje, e ainda, a arte serve como resistência ao poder, ao domínio. Se a contra-cultura foi sim fagocitada pelo poder liberal-capitalista, se virou objeto de mercado, ela continua a deixar sua influência, por baixo de toda a massificação que lhe foi injetada. Quando se assiste a um musical em inglês, com musicas de um famoso grupo inglês da década de 1960, com arranjos que em alguns momentos remetem a antigos musicais americanos e em meio a tudo isso que parece já tão massificado encontra-se a beleza, a alegria e algo que permite enxergar o mundo, pensá-lo, talvez aí tenhamos mais uma vez a demonstração da estética e da ética da arte. O humano ainda encontra seus caminhos, para o bem e para o mal.
Belo "Beatles num céu de diamantes".

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird, Beatles

domingo, dezembro 30, 2007

O imaginário, as fantasias que criamos, são parte integrante do chamado aparelho psíquico, daquilo que somos. Ainda que por vezes possam parecer descartáveis, infantis ou bobas, e até incomodem, elas são também inerentes ao que somos e apontam para algo do desejo, da verdade de cada um. Tanto que tendem a ser guardadas com carinho, como aquilo que nos lembra do que realmente deveria ser (e os sonhadores, os artistas são sempre reconhecidos, lembro aqui de John Lennon). Ou também podem se tornar obsessões...
Em "The Perverts Guide To Cinema" Slavoj Zizek fala da fantasia a partir do filme Um Corpo que Cai (Vertigo), citando como a fantasia do personagem de James Stuart de reencontrar a mulher amada, então morta, se transforma em uma obsessão. Em determinado ponto, na tentativa de tornar sua fantasia realidade, ele simplesmente transforma uma Kim Novak na outra (que também era interpretada por Kim, talvez porque no final o objeto sempre seja um só?). Mas a realização da fantasia ganha ares de pesadelo para nós espectadores, como explica Zizek, há sempre algo de estranho, bizarro na realização plena de uma fantasia. Mas naquele momento James Stuart não percebe isso, apenas nós...
Ainda Zizek, em seu texto Lacan as Viewer of Casablanca, fala sobre essa dualidade da fantasia, que nesse texto fica sob o olhar de um Ideal do Eu que precisa esconder o conteúdo sexual ou agressivo, em suma desejante, da fantasia e ainda daquele de um Super Eu que irrompe em angústia para fazer recordar exatamente do que falta nessa fantasia "asséptica" do Ideal do Eu. A fantasia fica então entre o aceitável cheio de angústia pelo que falta e o bizarro da realização plena.
Não é fácil, portanto, ser sujeito desejante. Há que se escolher todo o tempo, sabendo sempre que algo se perde na escolha. Há ainda a saída da sublimação, da arte. Por isso escrever palavras, talvez uma tentiva de exorcizar fantasias desejantes que tentam o ser humano.
Uma última citação: Sombras de Goya (Goya´s Ghosts), novo filme de Milos Forman, fala também de tentação, desejo, loucura, poder, arte e sublimação.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Um fim de Natal com boas comédias românticas inglesas...

http://www.youtube.com/watch?v=IyCsYuKnvWk

Com o tempo descobre-se como alguns filmes definiram de alguma forma o que somos e acreditamos. Há que se descobrir isso, para aceitar, mudar.
Mas qual o problema de querer um Hugh Grant declarando amor in the rain? ;-)

Que o Natal tenha sido bom!
"All I want(ed) for Christmas is(was)..."
someone to tell me...
"But I will be very sorry
to drive away from you."

(citação musical e frase do Primeiro Ministro ambas do filme Love Actually/Simplesmente Amor)

domingo, novembro 04, 2007

Ás vezes parece que a vida se escreve como um livro, como numa frase cliché. Momentos em que até parece que tudo vai começar a ter sentido. Talvez não sentido, mas quem sabe, quem sabe tudo pode começar a acontecer. Ou não. Ah, as ilusões que se cria. Para quem no fundo ainda sonha ser uma estrela caída a ser resgatada por um Tristan... Mas anda encontrando mais ironia que fantasia do destino.
Nem parece que a gente cresce.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley


Fiquei fascinada com o livro, pensando nas similaridades de nosso mundo moderno, consumista, de emoções fáceis e superficiais mas ainda salvo pelos livros, pela arte, pela oportunidade de uma individualdiade e de escolhas ainda não condicionadas (ou não?). Pensei no cinema, nos filmes simples quase sensíveis, nos outros filmes mais instigantes ao pensamento que às emoções fáceis. Pensei em Goddard, como seus fimes aos poucos começam a fazer sentido para mim e na sentença emblemática de seu "Nossa Música": matar um homem para defender uma idéia não é defender uma idéia. É matar um homem. E ainda em Bergman, em O Ovo da Serpente. Pensei em outros filmes que talvez transitem num estranho meio termo. Pensei em Hithcock como esse meio termo, que sabidamente manipulava o espectador mas ao mesmo tempo transbordava algo para além da mera manipulação de sustos.

Pensei em Shakespeare, claro. Pensei em poesia.

Pensei na liberdade para escolher, ainda que a solidão e a culpa, como faz o Selvagem John.

Pensei no "bem estar" e na OMS: "saúde é o bem estar bio-psico-social" e me assustei com a semelhança, com a possibilidade de que a saúde seja uma imposição. Não o são as vacinas? Sempre tendo em vista um bem maior, sempre com base no progresso e na ciência. Não é a epidemiologia fruto do progresso? E a clínica, clássica, fruto do contato entre seres humanos, não está perdendo campo, havendo sempre um novo exame, um novo guideline, fluxograma, que bem defina condutas médicas tão bem e claramente que talvez um dia um computador seja médico? Não pode hoje a Psiquiatria, minha especialidade tão cara, melhorar dores e dúvidas antes espirituais, hoje doença chamada "depressão"? Não tendemos a entender alterações de humor com espectros de bipolaridade que podem ser devidamente corrigidos com doses adequadas de Depakene ou algum outro estabilizador do humor? Estabilizamos humores, organizamos pensamentos. Curamos ou aliviamos sofrimentos mentais?
Não duvido do sofrimento humano, talvez inerentemente humano. E tenho dúvidas quanto ao caráter divino e redentor deste sofrimento.
Mas, talvez não duvide da redenção e da divindade quando penso nelas enquanto criações também inerentemente humanas. Quando penso que a liberdade permite que o humano escolha sentir-se digno de ser divino, de se redimir, de escapar aos seus sofrimentos, de alienar-se. Mas por escolha, certa ou errada, e não por imposição de outro humano que "sabe mais". E quem sabe mais de alguém que o próprio? (E quem sabe tanto de si mesmo, sem dúvidas, sem reticências, para arvorar-se a decidir com certeza científica pelos outros o que talvez mal decida para si mesmo?).
"...
E os seus tristes inventores
já são réus - pois se atreveram
a falar em liberdade
Liberdade, essa palavra
que o soho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."
Cecília Meirelles in O Romanceiro da Inconfidência
Poderá haver um futuro em que não se sonhe com a liberdade, pelo simples fato de não mais sonhar? E ao não sonhar, seremos ainda humanos? Teremos realmente nascido? E morreremos realmente? align="justify">
Morrer!
Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?
William Shakespeare in Hamlet


Pensamentos a posteriori...
Em AI, Spielberg, influenciado por Kubrick e baseado em livro de Brian Aldiss, nos mostra um futuro de robôs que sonham sonhar, para serem então humanos. E nós sonhamos controlar, para sermos robôs?

quinta-feira, julho 05, 2007



Isso (testezinhos) eu fazia no início desse blog, em 2002. Mas estou numa semana muito Lost, só que apaixonada pelo Dr. Jack Shepard e não pro Swayer... ;-)

quinta-feira, junho 21, 2007

Pensamentos e ensaios
Qual é o lugar da clínica, da saúde pública em nosso país?
Qual a importância da saúde? De manter o tal “bem estar bio-psico-social”?
Quando comecei a faculdade de medicina perguntava as pessoas no posto de saúde do Barreto o que elas entendiam como “saúde”. Não me lembro das respostas, mas não eram as da OMS.
Hoje, ainda trabalhando na assistência de saúde pública, especificamente psiquiátrica, vejo as pessoas procurarem um serviço médico, isto é, um centro de atenção “psicosocial” (porque será que tiraram o bio?) por diversas questões psicológicas, psiquiátricas, por sofrimentos diversos que nem patológicos são. Mas quem disse que sofrimento tem que ser patológico? E aí só o patológico é que deve ser tratado? Talvez sim. Mas o que fazer com os outros sofrimentos humanos? Será isso responsabilidade da saúde pública? Se não, de quem? Do indivíduo? Mas e a responsabilidade do governo em oferecer serviços que são pagos pelos impostos?
E o que é feito com os impostos? Saindo da esfera da saúde pública e começando na saúde dentro da Justiça descubro um outro mundo. Sem ostentações, sem excessos, mas com essencial para um bom trabalho. Bons salários, boa infra-estrutura, respeito e reconhecimento do trabalho feito. Não há tudo, não é perfeito. Mas que diferença da falta quase onipresente da saúde. Falta de verbas, de medicamentos, de boas condições de trabalho (salvo as exceções temos serviços com condições no máximo razoáveis de trabalho), de profissionais, por vezes de respeito e de reconhecimento. Reconhecimento este que se faz ver nos salários muito aquém daqueles da justiça (e de outras esferas públicas). E não falo aqui de equiparar a salários do executivo, nem dos altos escalões. Mas posso perguntar porque a base da comparação, que é uma arbitrariedade, uma construção, é o salário mínimo. Mínimo de que? Da cesta básica? Então nosso direito básico é de alimentarmo-nos? Se aceitamos tal base como justa porque será que aceitamos os salários 50 vezes maiores? Nossos deputados, senadores são assim tão melhores que nós? E nossos trabalhadores não o são, não valem isso? Não só na saúde, mas também na educação, não valem salários dignos de serem além do básico melhorado?
De repente me vejo a pensar porque só questiono os salários de funcionários públicos. Estarão estes acima dos outros? Ou talvez o mercado privado tenha outras lógicas de valorização, e muitas vezes também de desvalorização quando não exploração. Sujeitos portanto a fiscalização, denúncias. Mas me parece que no mercado privado fica mais claro, para o bem e para o mal, que cada um defende seus direitos. O problema é que alguns têm mais armas para defesa e ainda para ataque. Mas no serviço público temos a tal máquina pública a qual deveria servir aos cidadãos, os quais constituem o país e o sustentam, já que não estamos aqui por benevolência de algum dono do Brasil que nos permite aqui residir. Frase clichê mas o país é seu povo. Então me pergunto: é o povo que determina que funcionários da saúde devem ganhar pouco? É o povo que determina o salário mínimo (comparado ao qual nem todos da saúde ganham tão pouco)? É o povo, essa entidade onipresente de não sei que presença, que desvaloriza a si e aqueles que dele cuidam? Será então a saúde um valor desvalorizado?
Ou será que máquina pública reflete bem menos do que o esperado os desejos dos indivíduos que a constituem e mantêm?

domingo, junho 10, 2007

Duas pseudo-críticas por serem escritas, desde a primeira do ano que foi devidamente escrita e postada. Meses sem escrever, lendo, vendo, ouvindo. Tantas coisas...
Mas hoje, o recesso de Los Hermanos. Um show belo na sexta-feira. A sensação de tristeza agora que não tem mais show por tempo indeterminado. A escrita ainda aparece no lugar de catarse, de filmes a comentar, de um show, de uma tristeza pelo recesso/pseudo-fim (ou será?) da banda favorita.
Mas eles falam por eles mesmos. E talvez por isso tantos adoradores, por isso 3 dias de Fundição lotada cantando em coro, por isso tanto frisson pelo recesso, jogada de marketing ou não, talvez apenas um tempo de verdade para eles.

"não faz disso esse drama essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber"
Primeiro Andar, 4

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Primeiro filme do ano: Dias Selvagens, de Wong Kar Wai.
Cineclube Odeon. Pré-estréia do filme que é o "primeiro" da mezzo-trilogia continuada com "Amor á flor da pele" e "2046". O último foi um filme catártico de 2006. "Dias Selvagens" teve menor apelo emocional, mas ainda assim é um belo filme sobre o desejo. Esse que nos domina, por mais que tentemos domá-lo. Esse que retorna do nada (será?) e nos angustia, quando ainda não somos capazes de dar conta dele. De bem aceitá-lo. Mas esse mesmo desejo é só nosso, de mais ninguém. Não vem de um além, mas de dentro de algum lugar que está em nós. Por mais que não saibamos o que fazer com ele, é nosso, e a angústia sobrevem da incapacidade de aceitar o que é nosso.
Por mais que se tente, é impossível negar o desejo, amor, paixão. Tantos nomes para uma só coisa: a necessidade de não se sentir só ao longo do nosso tempo no universo.
E o tempo é um outro fator importante no filme (ainda falava sobre o filme?). Pois o desejo não conhece tempo e pode ser satisfeito (parcialmente) em 1 minuto. Ou pode o amor surgir de um momento, de um gesto, de um olhar.
O que parece permanente é a necessidade. Que sempre levará a a novos desejos, amores paixões. Cabe apenas escolher o objeto amado. Escolher????

quarta-feira, novembro 22, 2006

A Última Noite é um filme sobre o fim de um programa de rádio ao vivo. Mais simpelsmente, é um filme sobre o fim e sobre encarar o fim com dignidade, mais que isso, encará-lo sabendo que iria chegar e que nesse meio tempo, tudo valeu à pena. Na verdade é um filme sobre a vida, o fim sendo só o detalhe que torna viver ainda mais importante. Filme bonito, algo melancólico, belas atuações, belos momentos de vida, de personagens. Mais ainda agora, após o falecimento de Robert Altamn, quando o filme assume mais suas características e fica a parecer um quase epitáfio.
Tem crítica na contra campo.
Mas mais que isso, tem os filmes, a serem vistos e revistos, pensados, sentidos. Isso são as obras dos artistas, ficam além do tempo da vida, ficam e marcam outras vidas. É uma forma de entender transcendência.

domingo, setembro 24, 2006

Despensar

O que diz um ato falho?
O que digo eu ao dizer que despenso?

Digo que não penso?
Ou que penso diferente?
Ou que desejo não pensar?

Não pensar é sempre um desejo
O desejo de abdicar do retorno constante das palavras
Essas nas quais me perco, sem dizer
O que, como na música, mais que palavras poderiam dizer.
Não dizendo.

domingo, setembro 03, 2006

Eu quero um Sonny Crocket pra mim...

Miami Vice
2006, Michael Mann

Primeiro, eu não assisti a série de tv Miami Vice. Tenho uma vaga lembrança do que era. Nem sabia que a música "In the air tonight" tocava na série. Quando tocou nos créditos achei que era mais um momento oitentista do filme. Um amigo me explicou que era uma referência direta a série.
Então, não vi Miami Vice como uma adaptação, mas como um filme baseado numa história que, isso me lembro, tinha fortes cores oitentistas. Talvez uma das séries que ajudou a moldar a década. Dessa forma só posso dizer que gostei muito do filme.
Por manter um clima anos oitenta mas adaptado ao século 21. parece estranho, e parece estranho no filme. É uma sensação de dejá vü, sem referências diretas a década de oitenta (nada a ver com as festas Ploc da vida), mas de forma enviesada, relembrando algumas características. Interessante notar, por exemplo, que a Miami do século 21 não é infiltrada de violência como em 80, se ela é muito mais clean, virtual, tecnológica. Entretanto, ao levar a ação a países da América Latina, Michael Mann consegue retomar a antiga violência. Bairros pobres, homens armados, atitudes violentas mas com ilhas de tecnologia semelhante à de Miami. Surpreende a forma como o diretor e roteirista (e produtor da série original) mostra de forma tão pouco caricata essa realidade "nossa".
O que não surpreende são a fotografia e a montagem. Como em outros filmes de Mann, em especial O Informante e ainda Colateral, estes aspectos da direção são primorosos. A captação da luz, o uso das lentes, a impressão de enquadramento desfocado, dão um toque especial a um filme que seria ?só? de ação. Desta forma Miami Vice é um pouco mais que entretenimento, há um tratamento de imagem diferenciado no filme, perceptível, mas não necessariamente gratuito. As imagens fazem parte e diferença no filme. Lembrando que cinema é, antes de tudo (e do próprio roteiro), imagens em movimento!
A trilha sonora segue o clima anos 80 sem ser anos 80. Moby e Audioslave dão um clima anos 80 revisitado pelo século XXI. Mais uma vez, nada de Festa Ploc, nada de simples regravação e sim um trabalho sonoro que remete á algo retrô.
Agora, os atores. Jamie Foxx nem precisa falar, o homem é ótimo ator. Mas Collin Farrel faz um uso primoroso de uma certa canastrice. Seu Sonny Crocket é qualquer coisa entre o bom canalha e o bom policial, com charme. Muito, muito charme. Suas cenas com Gong Li transbordam sensualidade e afetividade. Basta dizer que ao final do filme eu só pensava: "eu quero o um Sonny pra mim".
Sem comparações com Don Johnson, pois nem lembro como era o seu Sonny. Mas não creio que fosse melhor...

sábado, agosto 26, 2006

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia... e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa

domingo, agosto 06, 2006

"Vai, vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, sofrer
Vai, vai, vai, vai, chorar
Vai, vai, vai, dizer

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor"

Vinícius de Morais e Baden Powell, Canto de Ossanha

domingo, julho 23, 2006

Não sei bem o que é
Nem se é alguma coisa
Pode ser que venha a ser
Também pode ser que não
Mas não custa tentar
E ver no que vai dar...

sábado, julho 08, 2006

Me perco em pensar explicações
relações de causa e efeito
algo que dê conta
do que simplesmente não é
Não é
aquilo que somente poderia ser
aquilo quase foi
o que já era
Para ser é necessário
algum despojamento
de si mesmo
alguma curiosidade
do outro
e todo amor
possível
Para que sejamos
enfim
nós dois
(Por hora sou eu
à procura de um certo você)
Momento de uma sexta à noite.
Ás vezes, quando nada sai como se espera, sentimentos quase mortos tão bem escondidos sob a razão do dia-a-dia, veêm á tona...

Por vezes
queria não me afetar
com aquilo que
nem mesmo me é dirigido

Uma palavra
um gesto
uma não compreensão

Que me ferem
entristecem
quando já não deveriam importar

Pois não me são dirigidos
estes insultos e incompreensões

Não compreende o outro
quem não dialoga
quem não se importa

Por que ainda me incomodo
com quem não se importa?

"In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care if I live or die ?"
Heaven knows I´m miserable now - The Smiths

domingo, julho 02, 2006

Rendo-me a comoção nacional. Estou triste e revoltada com o futebol apresentado ontem pela tal Seleção Brasileira. Jogavam para que os jogadores? Para ganhar (dinheiro)? Para aparecer? Para ganhar o jogo, nem digo a Copa, não pareceu que fosse. Pelo menos o coletivo não parecia ter esse fim, aidna que alguns jogadores tentassem jogar. Mas jogar sozinho é difícil. E a comissão técnica trabalhava para que? Para ganhar ou porvar que estava certa?
Não gosto de violência, mas reconheço que Felipe Scollari tem garra e desejo de vitória.
Perder não é vergonha. Mas não lutar é.
Para terminar, lembro um texto antigo:
E recomendo o blog do Juca Kfouri.

quinta-feira, junho 22, 2006

"Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens 'perto do coração selvagem da vida': o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante ao enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores."
F. S., em Cartas perto do coração, de Fernando Sabino e Clarice Lispector.
Saio do cinema, após ver um filme sobre solidão, encontros e humanidade e entro numa livraria. Me deparo com o livro de cartas trocadas entre dois escritores que falavam sobre esses mesmo temas. Há muito desejava ler o livro. Hoje leio!
Já tem crítica de "Eu, você e todos nós".

E é na Contracampo.

E é do Edurado Valente.

Uh hu!!

terça-feira, junho 20, 2006

Eu, você e todos nós
ou "... danço eu, dança você, na dança da solidão."
Esses pequenos filmes independentes americanos...
São eles, ao lado dos grandes "filmes de verão" e épicos (sim, estes ainda existem) que fazem o dito cinema americano. Este "Eu, você e todos nós", da artista Miranda July é um pequeno filme independente. É um filme sobre solidão. E sobre a busca humana para mitigar essa solidão. Essa busca que por vezes parece sem sentido, sem fim, que se faz compreender apenas naqueles momentos em que um toque, uma presença, um saber que o outro está realmente junto, ainda que geograficamente distante, esses momentos permitem que não nos sintamos sós no mundo. Momentos que são eternos enquanto duram. Quisera ter essa eternidade para sempre...
Filme que também mostra algumas pequenas sordidezes humanas, que se fazem menos sórdidas quando colocadas nesse contexto humano de necessidade e busca. Coisa que lembra Todd Solondz, mas com uma visão mais carinhosa que a dele.
Pequeno belo filme.
Como ainda não tem crítica da Contracampo, deixo a da Folha.

domingo, junho 18, 2006

Então, após um jogo da Copa meio sem graça mas com vitória da Seleção, fiu eu ver um filme em dvd, "O Terceiro Olho". Já via o filme na prateleira da locadora há algum tempo. Namorava ele por conta de ser Ryan Phillipe o ator principal (ele é lindo), mas acabava não levando por não conhecer. Ontem resolvi alugar, afinal tem outros bons atores, como Stephen Rea e uma trama pouco explicada na capa, mas que parecia interessante. O filme é pouco inventivo enquanto cinema, mas o roteiro é bastante interessante, sobre um homem que acorda numa cama de hospital, não lembrando dos dois últimos anos de sua vida. Acompanhamos sua busca pela memória, busca essa cheia de delírios ou viagens no tempo, coisa meio psiquiátrico-metafísica. Não conto mais pois senão perde a graça. Mas é filme para discutir no final.
"And late last night
makes up her mind
another fight
left behind"

There goes the fear, The Doves

No meio da noite de ontem, assistindo tv de forma aleatória, deparei-me com o festival de Glastonbury, edição de 2005. Tido como um dos melhores festivais de rock do mundo. Pensar que eu já fui a um semelhante, chamado Rock in Rio, versão 2001. Pensar que nunca mais houve outra edição, uma pena, pois foi um momento mágico de música e encontro de pessoas. Mas, aí eu paro no festival de Glastonbury exatamente quando tocava uma música muito querida, There goes the fear, do grupo The Doves, em bela versão ao vivo. Depois se sucederam outros novos nomes da cena roqueira atual, ótimos novos nomes, como Keane, The Killers (a banda americana mais inglesa da atualidade), Kasabian, Coldplay, entre outros. Dentre tantas novidades uns tiozinhos no meio, New Order. Interessante que eles tem cara de tiozinhos, de senhores de 40 e tantos, 50 anos, pais de família. Diferentemente de outros nomes tão antigos quanto como o U2 ou até mais antigos, como os Rolling Stones, que parecem se manter jovens para sempre. Mas o importante, a música, continua jovem e contagiante. Ouvir o New Order foi como estar numa pista de dança da década de 80 e isso não tem a ver com velharia. Pelo contrário, tem a ver com a magia da música, que mantém a juventude não pelo visual, que pode ser forjado para manter uma banda na moda, mas pela vitalidade musical. Assistir o New Order tocando "Love will tear us apart", ainda que pela tv, mostrou que pais da família podem ser roqueiros, jovens em seu talento. Essa talvez seja uma das grandes possibilidades do rock, unir gerações pela música, verdadeira. Sem necessitar de imagem!

"Oh simple thing where have you gone?
I´m getting old and I need something to rely on
So tell me when you´re gonna let me in
I´m getting old and I need somewhere to begin"
Somewhere only we know, Keane

domingo, maio 28, 2006

Apesar de tudo, do quanto te conheço, do quanto sei de suas atitudes, não consigo deixar de pensar que poderia ser legal. Que, de alguma forma mágica, a lá comédia romântica, poderia dar certo. A vida não é comédia romântica, pelo menos a minha ainda não foi (mas já foi romance, ainda que um pouco triste, mas ainda assim romance) mas fico imaginando que poderíamos ser legais, um com o outro, um para o outro.
Mas, não tem nada a ver mesmo, então, esse post será minha tentativa de, ao exteriorizar essa idéia, acabar com ela. Não pensarei mais nisso, mas, como diriam os Paralamas...


"Se você lembrar,
se quiser jogar
Me liga, me liga"
Existe um tipo de despojamento que tem a ver com fazer o que se quer sem esperar recompensas. Parece-me que tem a ver com o desejo, aquele que impulsiona, mas não com promessas futuras, apenas com a promessa presente de se ter a satisfação, aqui e agora, daquilo que se quer.
Pode parecer algo egoísta, inconseqüente. Mas talvez não. Porque é necessária uma responsabilização com o nosso desejo. Não há inconseqüência, não há mais lugar para "sem querer". Entendemos que podemos fazer aquilo que bem queremos, contanto que tenhamos responsabilidade por esse desejo e pela realização do mesmo.
Esse momento da responsabilidade consigo mesmo é o que marca a possibilidade de liberdade de querer e fazer. Ainda que esta liberdade esteja sujeitada a toda essa responsabilidade.
"Diz pra eu ficar muda faz cara de mistério
Tira essa bermuda que eu quero você sério
Dramas do sucesso, mundo particular
Solos de guitarra não vão me conquistar
Uh, eu quero você como eu quero "
Como eu quero
Kid Abelha

domingo, maio 21, 2006

Nessa vida a qual me sujeito
só de mim posso saber.
Ainda assim,
há algo de mim que escapa
está além do meu saber
é um não saber
(sabido?).
Do outro
aprendo que nada sei
Mas resta a curiosidade
de saber.
Talvez mera necessidade
de me perder
em você.

quinta-feira, maio 18, 2006

V de Vingança

"People shouldn´t be afraid of their governments
Governments shoul be afrid of people."

Um filme sobre terrorismo, poder e acomodação. Sobre o medo imposto pelo poder que gera acomodação. E sobre a possibilidade, ainda que romanceada no filme, de se ter o poder nas próprias mãos.

Quem é mais terrorista, o PCC ou o governo que paga R$30 mil de mensalão, ganha mais que a maioria da população e não paga devidamente bem policiais que moram ao lado dos traficantes???

"Num beco escuro explode a violência..."
Paralamas do Sucesso

Para uma crítica do filme leia a ContraCampo de sempre e a nova Cinética (crítica do Eduardo Valente!).

sexta-feira, abril 14, 2006

Desinteresse
Parece que sofremos de séria falta de interesse
Um desinteresse calculado
Que é mais um temer o interesse
Do que realmente não querer saber
Ou ainda
Querer e não querer
Querer e não poder
Aceitar
Mudar?
(se é possível...)

segunda-feira, abril 10, 2006

"Diga-se que um dos aspectos mais belos do filme é justamente este de trazer a atualidade do momento sócio-econômico argentino para um drama pessoal. Ou seja, não se trata de fazer um manifesto sobre a crise, não muito menos ignorá-la. Resta ver como ela afeta a vida das pessoas. Como as relações amorosas, familiares ou profissionais são impregnadas por ela. Simplesmente esta capacidade de retratar o seu tempo enquanto ele se desenvolve eleva o filme acima da maior parte da produção latina recente. E tornar a crise cômica e dramática é olhar para ela com os mesmos olhos com que somos forçados a olhá-la todos os dias."
Eduardo Valente em crítica ao filme O Filho da Noiva na ContraCampo, claro.
Esse trecho da crítica do Valente serviria também a Clube da Lua (Luna de Avellaneda), novo filme de Juan Jose Campanella. Tendo novamente como ator principal Ricardo Darin no papel de Román, e Eduardo Blanco como seu melhor amigo Amadeo, Clube da Lua fala mais uma vez da crise argentina. A diferença com O Filho da Noiva é que neste a crise parece ser o principal tema. Mas não é.
Román é sócio vitalício do clube que dá nome ao filme, lugar onde nasceu. Clube que no passado abrigou festas populares, namoros, amizades e que hoje é uma peça de resitência. Resistência da utopia de pessoas que acreditam que crise econômica, por mais que interfira em todos os aspectos do dia a dia, não precisa ser crise de valores, de sonhos, de relacionamentos. Se a economia hoje parece ser soberana e a tudo controlar, os sócios do clube Luna de Avellaneda querem apostar que existem coisas mais importantes que o dinheiro. Querem ser solidários e criar laços afetivos. Querem sonhar com um mundo melhor. E querem poder fazer tudo isso. Mas são cada vez mais assolados por uma visão cínica do mundo. Visão essa válida, como o próprio Roman chega a reconhecer. Talvez esse seja o certo, ser cínico, pensar em ter dinheiro e melhorar de vida (?). Mas o que o belíssimo, ainda que aparentemente simples em sua dramaticidade e emotividade, Luna de Avellaneda tenta falar (ou assim me pareceu) é que ainda pode existir lugar no mundo para sonhos e utopias. Para clubes ondem meninas dançam balé, meninos jogam bola, homens jogam carteado e ninguém quer ficar rico com nada disso. Querem apenas se encontrar, quem sabe à luz da lua...

domingo, março 19, 2006

O que se faz após assistir um documentário que joga na cara aquilo que todos sabemos? Em horário nobre de domingo, na rede global, ficamos sabendo do já sabíamos, que os meninos do tráfico são apenas meninos em busca de um sonho. Só que vivem em pesadelo, sem dinheiro, sem pais, sendo meninos-pais de outros meninos sem pais. Eles buscam o mesmo sonho de dinheiro, de coisas materiais "legais" que todos os outros meninos. A diferença é que a forma que encontram para conseguir isso. Ou não, alguns meninos ricos fazem coisas semelhantes, só que usam ternos de colarinho branco.

Mas e aí? O que fazer?

Assistir Big Brother e esquecer... ?????
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.
Geração Coca-Cola, Legião
Mas aqueles meninos nem chegaram a pensar que poderiam cuspir tudo de volta. Morreram antes, ou melhor, mesmo que não tivessem morrido, não lhes é dada a chance de pensar. Seriam realmente perigosos se isso acontecesse!

quarta-feira, março 01, 2006

Mais um post "off carnaval"
Escrevi sobre a morte de um amor. Mas foi um erro. Amor, paixão, não acaba assim, não pode ser deletada como um arquivo pouco útil e dispendioso de memória. Também não pode continuar gerando tristezas. Talvez transmute-se, muito lentamente, em algo mais sereno. Não sei bem o que, mal sei como. Só sei que a idéia de simplesmente parar de amar foi muito infantil. Continuo, então...
"There goes the fear
Let it go..."
The Doves

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Crime Delicado, filme de Beto Brant, é a crítica à crítica. O crítico de teatro e arte em geral, bela atuação de Marco Ricca, parece não entender a paixão que move o artista. Olha a arte de forma tecnica, acadêmica. Parece viver também dessa forma, tanto que quando se apaixona não entende bem o que lhe acontece e não sabe o que fazer com aquele sentimento, toda aquela necessidade. Acaba por cometer o tal crime, delicado por ser um ato de amor, mas um amor mal entendido pelo próprio amante. Talvez como o crime de Benigno, o enfermeiro de Fale com Ela, que estupra uma mulher em coma movido por amor - belíssimo momento de Almodovar que nos faz entender Benigno e ter compaixão por ele, apesar do crime ediondo. Mas em Crime Delicado não temos compaixão pelo crítico, mesmo porque parece lhe faltar paixão. A paixão de que fala parece mesmo mais falada que sentida. Parece lhe faltar a mesma expressão de paixão que falta a suas críticas.
E críticas podem ser escritas apaixonadamente, creio eu. Quase Famosos mostra isso. A Contra Campo é um exemplo contínuo disso. Mesmo as críticas mais fundamentadas e técnicas sempre guardam um olhar de alguém que vê filmes por puro prazer, quiçá necessidade. Acho que escrever críticas deve ter a ver com essa paixão, com essa necessidade de mais um momento de contato com a obra, a necessidade de transbordar em palavras toda a emoção sentida nesse contato. Nas poucas vezes que escrevo algo sobre filmes, músicas, faço por pura necessidade. Creio que por paixão.
Crime Delicado me pareceu um belo filme sobre a crítica estéril e a arte transbordante de paixão e necessidade (no lindo monólogo do pintor).

domingo, janeiro 22, 2006

Algumas decisões não deveriam ser possíveis, pois são quase desumanas. Decidir, conscientemente, matar alguém, não deveria ser possível. Tal qual decidir, conscientemente ou não, desamar alguém.
A decisão é tão dIfícil que demora. Nos EUA levam-se anos para condenar, definitivamente, alguém à morte.
Eu levei meses para condenar uma história sem futuro ao fim.
E mesmo assim, ainda vacilo.
"Não é fácil
Não pensar em você"

sexta-feira, janeiro 20, 2006

2046 ou "A (im)possibilidade do amor"
Em algum momento de 2046, filme de Wong Kar Way, o personagem principal, Chow, escritor, diz que o amor chega na hora certa. A questão é que a pessoa amada não pode chegar nem antes nem depois disso. Alguns filmes também chegam na hora certa. A tempo de serem experiências catárticas.
Os filmes (a experiência cinematográfica em si) foram e são parte de minha formação. Mais que simples entretenimento, sempre foram uma forma de contato com o mundo. Forma de aprendizado e até de diálogo.
E, algumas vezes, foram forma de identificação.
Como em 2046 e sua história de amores possíveis e impossíveis. Muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo. O único romance que se torna realmente possível, plenamente, não nos é mostrado. Podemos apenas acreditar no relato dele. Todas as outras história amorosas são marcadas pela impossibilidade. Ainda que se tornem reais, possíveis, por algum tempo. Como o relacionamento de Chow e Bai Ling, no qual ela se apaixona, aidna que sabendo que não deveria...
Talvez seja do culpa do tempo que alguns encontros ocorram em momentos errados, antes ou depois.
Talvez não haja culpa. Só o fato da impossibilidade.
Ainda assim 2046 é um filme belo, transbordante de paixão, obrigatório.
Tanto quanto cada amor é belo, transbordante, obrigatório.
Mesmo que impossível.
Para uma crítica balizada, tem o ótimo escrito de meu amigo Jr na contra campo.
"As lembranças são os vestígios das lágrimas."

quinta-feira, janeiro 19, 2006

"Ai que saudade, do céu, do sal, do sol de Maceió"
(Autor desconhecido, pelo menos por mim)
Pouco tempo para sentir saudades, poderiam me dizer. Apenas algumas horas de volta dessa terra simples mas bonita como só.
Mas que disse que saudade tem tempo???
As minhas não têm e por isso canto minhas saudades de um lugar onde fui hospedada com carinho. Onde fui a belas praias, tranquilas, para se nadar junto com os peixes. E outras bravas, com ondas a serem domadas por homens em pranchas. Onde a vida é mais tranquila que neste Rio de Janeiro. Onde não se precisa saber de tudo a todo tempo. Diria que parece haver mais tempo para viver.
Mas isso não faria sentido, pois vive-se no Rio. Talvez a questão seja a vida que nos é ditada pela cultura da qual pode ser difícil desvencilhar-se. Talvez fora das grandes metrópoles seja mais fácil não precisar saber do último desfile do SP Fashion Week, do cult badalado ou onde foi o último tiroteio.
Talvez seja mais fácil ser mais autêntico. Ou não, talvez hajam outras amarras nas cidades menos cosmopolitas. As amarras sociais existem em qualquer lugar onde haja mais de um ser humano, onde haja sociedade.
Mas é bom lembrar que a realidade carioca não é a única. Duvidar das certezas e verdades é sempre um exercício estimulante. Tal qual conhecer novos lugares, pessoas, histórias, fazer amizades.
Permite pensar em possibilidades.
E na perfeição de céu estrelado acima das nuvens que vi ao decolar de Maceió. Imagem de filme.
"Navegar é preciso. Viver não é preciso."
(Fernando Pessoa)

sábado, dezembro 31, 2005

Talvez o amor seja a grande resposta. A capacidade de amar o outro, em suas várias gradações, desde a compaixão pela identificação até a paixão pela pura e simples admiração incondicional (e necessidade) do outro.
Talvez seja a única resposta que nós, humanos, podemos construir para nossas dúvidas existenciais. Ou talvez seja só a minha resposta. Tudo bem, contanto que continue colocando-a em prática.
Mas, talvez não só eu. Hoje assisti "Olhos Abertos", primeiro filme de Shymalan (ao menos o primeiro longa metragem). Cada vez mais o tenho como um dos melhores (senão o melhor) diretor de cinema da atualidade. Se este primeiro filme carece de certos elementos de construção dramática rebuscados, dos quais seus filmes desde O Sexto Sentido são tão ricos, ganha numa certa simplicidade dramática e emotiva. E essa simplicidade não compromete a experiência cinemtográfica.
Nem sei se contar a história de um menino de 10 anos que busca Deus após a morte do avô poderia ser mais rebuscado. O roteiro já parte de uma idéia complexa, temos um menino católico bastante filosófico e contestador, ainda que ao mesmo tempo, querendo apenas buscar a confirmação de sua crença. Ele quer acreditar, mais do que todos os outros colegas que aceitam os ensinamentos católicos sem questionar. E em sua busca nada infantil ele acha a resposta no amor. Ao sentir sua primeira "reação biológica" (paixão), para usar seus termos, a uma menina; ao se identificar (compaixão) com os colegas que lhe eram tão distantes (o gordinho, o valentão, o estranho) entender que eram meninos como ele; e ao perceber que a amizade pode ser um milagre. Joshuavive todos esses exemplos de amor ao longo da difícil quinta série, iniciada com a perda do avô. Seu ano de mudanças (entrada na adolescência, poderíamos dizer) se inicia, como em qualquer mudança, com a perda. Mas termina com um encontro, com o amor, com seu Deus e por fim, com um anjo sem asas que esta lá o tempo todo a ajudá-lo mas que Joshua só vê como o que relamente é para ele quando aprende a amar seus semelhantes. É ou não uma história de humanidade?
E esse foi só o primeiro filme do Shyamalan...
E que a próxima volta da terra em torno do sol traga fartura de colheitas, mas também de humanidade.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Esperava um filme infantil. Como pré-julgar nunca significa algo de construtivo, o máximo que consegui foi uma bela surpresa ao assistir "As Crônicas de Nárnia". Bonito filme. Voltado ao público infanto-juvenil, sem dúvida. Mas muito mais violento do que eu poderia esperar, emocionante e com simbolismos muito interessantes. Tinha lido sobre a história ser uma alegoria do cristianismo. Ao ver o filme, ainda sem ler o livro, pude perceber o paralelo entre Aslan e Jesus. Difícil duvidar ao ver a morte/ressureição de Aslan e a frase final de Tumnus sobre ele. Falando em Tumnus, que fauno charmoso! Filmes com personagens tão charmosos tendem a ser bons... Mas o filme é das crianças, os quatro irmãos, que fazem por merecer. E ainda da Feiticeira Branca. E, para que eu visse o quão errada estava em meu pre-julgamento, os animais computadorizados não agridem em nada. Parecem computadorizados, sem dúvida, mas estão mesclados ao filme, não são coisas estranhas. E a história é bonita. Filme para se juntar a "História Sem Fim", "Labirinto" e até "Mary Poppins" no imaginário de filmes infanto-juvenis. E, para além disso, um belo filme para qualquer idade!

sábado, dezembro 24, 2005

Assisti "Warriors - Guerreiros da Noite", filme de 1979. Um pequeno filme cultuado na década de 80. E que eu desconhecia. Interessante, é um filme datado, mas no bom sentido. Retrata uma determinada época de uma forma caricata mas que acaba ganhando ares de fantasia urbana. Roteiro simples, a volta para casa de uma gangue nova-iorquina que está sendo procurada pro todas as outras gangues e pela polícia. O filme se passa numa única noite, o que faz lembrar do clássico cult "Depois de Horas", que é posterior a esse filme. Terá Scorcese se inspisrado neste filme quase camp? Lembra ainda "Loucuras pela Madrugada" filminho adolescente também do início de 80. Mas, a questão é, Warriors é anterior. Terá este filme sido tão inspirador? É possível, já que consegue, com pouco roteiro prender a atenção e criar algumas memórias no espectador. O estilo tosco se justifica dentro do filme, serve a um propósito. Acaba se tornando estilo e não falta dele. Os atores canastrões acabam se tornando reconhecíveis. E eu já estava preocupada com os Warriors não cosneguirem chegar em casa.
É por essas e outras que o importante é gostar de ver filmes. O entendimento vem depois. Quando vem...
"Can you dig it?"
"What´s so funny about peace, love and understanding?"

Já perguntava Elvis Costello...

sábado, dezembro 10, 2005

Historinhas de romance...
Alguns textos devem existir apenas o tempo de serem lidos.
Depois, que fiquem na memória, se forem dignos da lembrança... :-)

Ou não...


Quando criança achava essa música brega. Talvez ela continue sendo, mas hoje faz sentido.

"Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer..."
Roberto e Erasmo


Tenho para lhe falar também. É provável que você já saiba, mas a dúvida me corrói, gera ansiedade. E por isso, hoje, aqui, nesse espaço pseudo-público (quem lê??) declaro que sou apaixonada por você. Apesar de tudo. Da impossibilidade, da minha consciência disso, da minha racionalidade, e o que mais? Talvez apesar do céu ser azul, o sol amarelo e as estrelas cintilarem. Lhe tenho esse afeto e pronto. Iniciado antes do que possa supor. Fique zangado não, tá? A idéia nunca foi essa e continua não sendo. Simplesmente sou muito menos racional do que pareço, perco o controle com mais facilidade do que imagina. Já tem um tempo que venho descontruindo minha imagem de menina superperspicaz. Aceitar e pode dizer-lhe isso faz parte desse processo. De me tornar uma pessoa diferente, para mim e para os outros a minha volta.

Então é isso.

"Como a gente achou que ia ser..."
Damian Rice / versão de Ana Carolina e Seu Jorge


domingo, novembro 27, 2005

Falando em próximo do Shyamalan...

O teaser é interessantíssimo, mesmo que mostrando muito pouco.

sábado, novembro 26, 2005

Trechinhos de historinhas...

" Namorar é fazer pactos de amor com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível
de durar.
"

M ela fizera pacto com uma ilusão. Um pouco mais real que todas as outras mas ainda assim algo que exitira apenas em sua mente. Não que seu objeto de afeto não existisse. Algumas sensações não são imaginárias, e após cada encontro ela sabia disso. Mas a ilusão que criou, meio que sem saber, pois sabia que não podia, essa fora só sua. Não podia lhe dizer o quanto representara para ela.

Mas porque não podia?

terça-feira, novembro 22, 2005

Sinais

Shyamalan é genial. Talvez eu seja exagerada. Mas acho que não. Seus filmes nunca são sobre um tema só, sempre têm mais de uma camada. Revendo Sinais, mais uma vez, pensei nisso. Filme sobre medo? Filme sobre alienígenas? Filme sobre fé? Filme sobre relãções familiares? Sobre tudo isso e mais alguma coisa?
Acho que é sobre tudo isso. E consegue isso de forma magistral. Assusta, emociona, prende a atenção. E tudo isso contando uma história de persongens, gente como a gente, meio estranhos, com seus defeitos e dúvidas. Não há heróis nos filmes de Shyamalan. Mesmo no filme sobre heróis (Corpo Fechado/Unbreakable) ele subverte essa idéia da perfeição.
Para Shyamalan não somos perfeitos, mas ainda assim ele acredita na humanidade. Retrata-a de forma carinhosa, ainda que não negando as falhas individuias humanas (A Vila). Mas acreditando que há algo pelo qual vale à pena em cada um. Acredita na redenção, ainda que para isso haja sofrimento (todos os filmes, incluindo o primeiro sucesso Sexto Sentido, no qual a redenção vem após a morte, e no entendimento e aceitação da mesma).
Humanista esse Shyamalan. E um homem de fé. Na humanidade e suas necessidades, erros e belezas.

Cadê o próximo filme dele???? :-)

domingo, novembro 13, 2005

"Coisa mais bonita é você
Assim, justinho você"
(Coisa mais linda, Carlos Lyra e Vinícius de Moraes)
Que filme bonito é "Vinícius", o documentário sobre Vinícius de Moraes.
Também, pudera, teria de ser muito ruim para conseguir não ser bom com material tão rico em poemas, músicas e vida. É um filme sobre um homem que viveu intensamente. Contraditório, como todos, e essa contradição aparece nos depoimentos que se contradizem. Hora os amigos falam da alegria, mas vez por outra falam de um certa tristeza do poeta. Dos vários amores, mas que, frisa Tonia Carreiro, eram sempre grandes paixões. Ela fala de um homem que trocava de mulheres por não surportar viver sem paixão. Vivia a imortalidade dos amores enquanto estes duravam e não conseguia se manter nas relações após o fim da chama. Nisto parecia de uma sinceridade ímpar e por isso sofria.
Os amigos lembram da genialidade, tanto nas letras quanto nas sonoridades. E da sua necessidade de amigos e sua amizade sincera. Acho que talvez sincero seja uma palavra a definir Vinícius. Pelo menos a partir das memórias parece ser essa a idéia que passa.
O poeta Ferreira Gullar tem duas belas definições sobre nossa condição de humanos, relacionadas a vida do "poetinha". Fala da impossibilidade da Verdade e que, se não podemos saber A Verdade, então talvez seja melhor acreditar do que ser cético. E ainda que, se não é possível saber realmente o que é a vida, a nossa vida só pode ser inventada, então lhe parece melhor inventar a alegria do que a tristeza.
Assim já dizia Vinícius (com contradição, também humana)
Samba da benção
(Baden Powell e Vinicius de Moraes)
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas, pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.
Fazer samba, não é contar piada
Quem faz samba assim, não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza, tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança:
A de um dia não ser mais triste não.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Crônica de BH

Belo Horizonte é cidade de nome bonito. Nome que fala de esperanças, de horizontes.
Quem lá chega para um Congresso de médicos de almas que se querem cientistas (a razão sempre pareceu mais verdadeira que a intuição) encontra uma cidade alta. Ao menos para aqueles que veêm do litoral. Uma cidade sem praias, mais uma característica marcante aos vindos da proximidade do mar. Mas com um sol quente, um céu azul a nos receber, como que convidando a belas férias. Ainda que fosse um Congresso...

Cidade de ladeiras, a lembrarem filme americano de perseguição de carros. Um centro de cidade com prédios cosmopolitas ao lado de outros de 40, 50 anos atrás. Muita gente nas ruas. Polícia Montada. Falavam de violência. Voltei intacta!

Cidade que nos recebeu com noites estreladas, agradabilíssimas. Música de metrópole para dançar até de manhã cedo. Acho até que esquecemos as estrelas...

Cidade de pontos turísticos que se perdem, frente a graça e simplicidade dos lugares comuns. Tão comuns que quase parecem com os de qualquer outra cidade dita grande. Mas que guardam uma certa mineirice, um convite a ser menos expansivo, ainda que não menos alegre. Talvez seja a quietude, um certo ar de respeito pelo alheio. Ou ensimesmamento. Mas cheio de afeto e cuidado.

Cidade que me permitiu conhecer melhor gentes boas, que estranhamente moram no mesmo Rio que eu, estudam onde estudei, mas ainda não conhecia tanto. Onde entendi, mais uma vez, que a vida é simples. Sei que ainda esquecerei mais algumas vezes. O tempo que se perde...

Enfim, cidade que convida ao cotidiano, ao fim dos sonhos em prol do real. Ou, talvez, seja melhor dizer que convida-nos a enxergar o horizonte, e não ficar apenas a sonhá-lo.

Cidade interessante, essa BH.

domingo, agosto 14, 2005

A perda da inocência
A crise ocorre quando nos damos conta de fatos que ocorrem há muito mas que nos incomodam. A corrupção sempre existiu (não é?) mas dessa vez incomodou alguém. Será que nos incomoda? Eu me sinto incomodada quando sei que se pagava R$30.000 para que deputados votassem nas emendas do governo, quando nós pagamos os deputados para representar a nós. Idem com o governo. E quando falta dinheiro na saúde, para falar só da área que conheço. E quando a educação não educa ninguém, pois forma semi-analfabetos acríticos. Mas isso talvez não seja falta de dinheiro e sim de interesse. Porque, um dia (sou otimista) seremos um povo (sim, acredito na idéia de um coletivo, afinal, o Brasil não é umpedaço de terra limitado pelo Atlantico e de um lado e outros países da América do Sul de outro. O Brasil é o povo que aqui vive, que fa zessa terra viva) crítico, capaz de perceber que uma das maiores denúncias dessa crise tem menos a ver com PT ou Lula, tem a ver com todos:
Se o PT precisou comprar um publicitário e partidos para se eleger isso significa que nosso poder de voto é nulo. Continuamos como na época do coronealismo, iníco do século XX, quando os coronéis pagavam para que as pessoas (na época só os homens, pouco antes só os livres) votassem em quem indicassem. Hoje nosso voto parece dirigido (pela forças da midia) e nem mesmo recebemos o dinheiro. Quem já tem é que recebe.
Sinto como se meu voto de nada valha, já que o que importa é o dinheiro gasto para comprar o melhor vendedor de idéias e os partidos que vão ajudar. Nada de ideais. Nada de representatividade, a nãos er a auto-representatividade da elite.
Nada mudou no mundo. Mas eles nos enganam direitinho com essa história de democracia, república. Mas, quem disse que a Grécia era uma terra de iguais, se só os homens livres votavam? Só essa base histórica para nosso ideais atuais já deveria nos dar a pista...
Diálogos cinematográficos
Existem filmes que dialogam. Os críticos da Contracampo já mostram isso há muito e eu aprendi com eles. Dessa vez eles (ainda) não falaram de dois diálogos que eu pude perceber.
"A Fantástica Fábrica de Chocolate" e "Terra do Nunca" - não, os filmes não têm em comum apenas o fato de ter o (perfeito) Johny Depp como protagonista. Dialogam por falarem de um protagonista adulto que não consegue sair de sua infância (o "mal" de todos nós jovens adultos atuais, o que torna os filmes bem atuais). Enquanto em "Terra" J.M. Barrie é, sim, um adulto mas frustrado (pelos desejos que não se dá o direito de aceitar) e que só encontra alguma satisfação quando envolvido pelo mundo mágico das crianças; em "A Fantástica Fábrica" Willy Wonka simplesmente não cresceu, ainda é o mesmo menino que fugiu de casa para dar a volta ao mundo no museu de Bandeiras do Mundo. Wonka cria seu mundo de fantasia, despreza os outros e chega a ser cruel, tal qual a criança que ainda é. No final podemos imaginar que a reconciliação com o pai (seqüencia mais psicanalitica do que a a debochada cena do Umpa Lumpa freudiano) marca o início da maturidade de Wonka, que parece ter parado lá na pré-adolescencia. Talvez... Mas isso não é o importante, se ele vai "crescer" ou não. Importante é que o filme nos deixa entender que Wonka encontrou seu lugar no mundo sendo quem é: pré-adolescente, um pouco cruel, criador de um mundo de fantasias e gostosuras. Ele não tem medo de ser ele mesmo. Talvez até possa se chatear por ser sozinho, e aí busca solucionar seu problema, mas não deixa de ser Willy Wonka e querer o que bem entende.
E J.M. Barrie? Um adulto, sem dúvida. Teatrólogo, casado (mas filhos...), bem sucedido, ainda que no momento inicial do filme esteja passando por uma crise. Crise criativa, crise no casamento, talvez crise de si mesmo. Barrie é um homem frustrado num casamento que nos parece sem paixão, escrevendo peças pouco inventivas, vivendo uma vida que parece nem mesmo querer. Poderíamos (ou posso eu, com minha visão psiquiátrica) chamá-lo de depressivo. Barrie prefere ficar sozinho com seu cachorro, como se as outras pessoas o importunassem. Até que conhece a família de crianças, com uma mãe viúva. Ele se apaixona por todos e tenta, de forma "adulta", viver essa paixão. Mas parece que ser adulto é siplesmente continuar frustrado, já que Barrie não pode assumir sua paixão pela mãe, pelas crianças e acaba por escrever uma peça como forma de realizar suas fantasias. A questão que fica é: por que diabos Barrie não pdoe realizar seus desejos? Porque tem de continuar frustrado? Será que crescer é aprender a conviver com a frustração auto-impegida? Pois em momento algum Barrie tenta mudar as coisas ele aceita tudo, disciplinadamente, ainda que não gostando de nada.
Então, prefiro Willy Wonka. Ele busca o que quer e parece se encontrar mais que Barrie. Wonka pode parecer meio doido mas não se frustra como Barrie. Se o real é ruim ele cria a fantasia não só em seus pensamentos, eles as faz reais, assume o controle de sua vida. Talvez até de forma mais adulta que Barrie que vive preso a seus pensamentos, em forma de peça...
Faltou falar da violência de Sin City e a de Old Boy. Fica pra depois. (Como diz o Pato Fu)
"Old man dies. Young woman lives. Fair trade."

Fala do Detetive Hartingan (Bruce Willis), no belo Sin City.

quinta-feira, agosto 04, 2005

O fundo do poço é: identificar-se com alguma cena de América.
Além do fundo é: identificar-se com uma cena da Sol!!!!!!!!!!!!!!

Eu achava que era identificar-se com um pagode.

Depois dessa, Fundo de Quintal que me espere...
O que define uma pessoa?
Suas escolhas.
Seus atos.
Suas idéias?
Seus ideais?

It was just my imagination
Running away with me

Ouvia a música de sua adolescência e de repente era como se tivesse traído seus ideais. Não era o que realmente quisera ser. Era um fantasma dos seus sonhos. Uma cópia mal acabada. O que se tornara? Uma alienada em todos os aspectos de sua vida, que tentava ir além mas sempre acabava desistindo. Desistia dos ideais de forma tão fácil que hoje se perguntava o que sobrara. O que queria. Era como se tivesse se baseado em premissas falsas. Como se quisesse se enganar. Seria fácil se não soubesse. Mas vez por outra tinha o vislumbre de que tudo não passava de auto enganação, não era real.
Sua vida não era real.
E por mais que quisesse acreditar na fantasia, sabia que era mentira. E incomodava saber que vivia na mentira...
Mas também não tinha forças para romper com tudo. Tinha medo do que poderia vir. De ficar sem fantasia, sem nada.

Think of me when you close your eyes
But don´t look back when you break all ties

sexta-feira, julho 29, 2005

"...
como pode alguém sonhar
o que é impossível saber?
não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi, o vento leva!
..."
o vento, de rodrigo amarente, no álbum 4 do los hermanos

quinta-feira, julho 28, 2005

4
Álbum novo do Los Hermanos. Como sempre, não é disco para ouvir uma vez, tem de ser realmente ouvido porque de primeira tudo parece estranho. Na segunda audição nota-se a beleza e uma certa dose de tristeza, melancolia. Tem até música que parece feita para se dançar junto de alguém... Parece que se está num finzinho de tarde, numa casa a beira da praia, bem acopanhada, vendo o mar, o céu e pensando na vida.
Sim, é muito mpb, os títulos parecem até de música do Caymi, mas tem rock no meio. Mais uma vez superando os gêneros e classificações os meninos fazem simplesmente música muito da boa!!

terça-feira, julho 19, 2005

Pobres Rimas

O que fazer
Quando não se sabe o que escrever?

Ou talvez
Quando não sei escrever
O que tenho medo de dizer

domingo, julho 17, 2005

It was a cold dark evening such a long time ago
When by the mighty hand of Jove
It was a sad story how we became
Lonely two-legged creatures
It's the story
The origin of love
That's the origin of love.
The origin of love (trecho), do filme/musical Hedwig and the angry inch
Porque eu não sei escrever... Acho que é por isso que gosto de ouvir música, procuro por palavras que falem o que não sei falar.
Tentativa de escrever...

Conheceram-se no refeitório.

Ela sentada, quase imóvel, não ligando para a comida ou os demais ao seu redor. Olhava para o nada, parecia perdida em si mesma. Nem mesmo estranhava aquele lugar, apesar de ser seu primeiro dia ali.

Ele adentrou o refeitório falando com todos. Ao contrário dela que não conhecia ninguém muito menos fazia questão de conhecer, ele parecia conhecer e ser conhecido. Já fazia parte daquele ambiente e parecia gostar. Pegou sua bandeja, escolheu o que mais lhe apetecia do café da manhã e foi sentar-se na mesa com outros pacientes jovens.

Foi quando a viu na ultima mesa, sozinha e distante. Encantou-se, talvez por ela ser jovem como ele (a maioria dos outros eram mais velhos), talvez pela sua indiferença naquele meio onde todos, de alguma forma, chamavam a atenção. Parecia não se importar com tudo aquilo. Parecia fechada em si mesma de tal forma que o resto não lhe importava.

Parecia com ele.

Foi falar com ela.

Continua...

quarta-feira, junho 29, 2005

Pequeno Dicionário da Crise (trechos)

CORRUPÇÃO
Otávio Velho (professor aposentado de antropologia do Museu Nacional)

O uso do termo para referir-se a suborno, depravação, utilização de meios ilegais no serviço público etc. deriva do seu sentido geral como ato, processo ou efeito de tornar-se apodrecido. É interessante, assim, como a corrupção no terrreno jurídico-político deita raízes na observação de um fenômeno natural, certamente com a mediação da sua utilização no terreno da religião. Só que, na tradição cristã, a corrupção associa-se a uma grande anormalidade inicial: o afastamento dos seres humanos de Deus. É provável, portanto, que, no terreno jurídico-político, trate-se muito mais do controle da corrupção do que de acabar com ela.
O controle, portanto, deveria caber à lei. O que parece, no entanto, é que boa parte da vida social não é redutível a um quadro legal universal. Quase que se poderia dizer que os grupos sociais têm suas fronteiras dadas exatamente pelos limites dentro dos quais se praticam usos e costumes aceitos, mesmo que ao arrepio da lei universal. Exemplos não faltam, o que não deixa de levantar delicadas questões no manejo das relações entre o interno e o externo a esses grupos.

Não é à-toa que na política o decoro ganha proeminência. Os momentos de crise são em geral aqueles em que ele é atingido, seja pelo rompimento das regras não escritas, seja porque a disputa política leva uma das partes, como último recurso, a fazer apelo à lei universal, seja por ingerência externa. Nisso a mídia tem hoje importância decisiva na caraterização de escândalos.
Trata-se de não esquecer que o objetivo possível é aprimorar os controles, sem paralisar a política. Nem o irrealismo ou a demagogia dos que dizem pretender (até como arma política) acabar com a corrupção nem a penalização unilateral dos emergentes, obrigados a expor-se para romper os domínios tácitos. Talvez, então, daqui a dez anos não tenhamos tido nenhuma mudança dramática, mas teremos consolidado a democracia se tivermos resistido a golpes que pretendam interrompê-la ou restringi-la sob o pretexto de aperfeiçoá-la e se tivermos, até, alcançado alguma redução na corrupção. Poderíamos mesmo ter alguma mudança cultural resultado que não pode ser planejado, nem colocado como condição inicial.

REPRESENTAÇÃO
Renato Lessa (professor de teoria política na Iuperj)

Dá-se por suposto que o problema da representação política decorre de problemas de escala. O gigantismo dos eleitorados, a extensão dos territórios e a complexidade da agenda pública tornariam impraticável uma organização política fundada na participação direta dos cidadãos. O curioso é que tal princípio foi inventado e desenvolvido quando os eleitorados eram ainda diminutos, o que faz da suposição algo aparentado da superstição.
Para James Madison, um dos clássicos na matéria, o ?esquema da representação? é o que distingue a idéia moderna de república da de democracia. Mais do que um desdobramento natural do princípio clássico da soberania popular, a representação é um artifício pelo qual poucos e bons falam pelos muitos e nem tão bons assim. Ela, na verdade, é um filtro, cuja principal finalidade é a de reduzir os impactos possíveis da potência da ?multidão? sobre a ordem política.
O que resulta da operação e tal filtro é o que, de forma mais apropriada, deveríamos designar como governo representativo. As democracias realmente existentes são regimes nos quais eleitorados coexistentes à população adulta fazem-se representar por meio de mecanismos eleitorais. Se levado a sério, o desenho indica que a relação crucial é a que se estabelece entre representantes e representados, no sentido de torná-la mais densa e genuína.
O pior cenário para o governo representativo é o da redução da representação a um mecanismo no qual os representantes representam a si próprios e no qual a relação mais significativa é a que se estabelece entre eles e o governo. Qualquer analogia com os dias que correm não será acidental.

In Mais, página 6, Folha de São Paulo, domingo, 26 de junho de 2005.

quinta-feira, junho 09, 2005

O homem está condenado à liberdade.


-Sim. Afinal, não pedimos a ninguém para sermos criados como indivíduos livres.
-É exatamente esse o ponto central em Sartre. Acontece que somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isso torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas. Sartre chama a atenção precisamente para o fato de o homem nunca poder negar sua responsabilidade pelo que faz. Por essa razão, não podemos simplesmente colocar de lado nossa responsabilidade e dizer que "temos" de ir trabalhar, ou então que "temos" de nos pautar por certas expectativas burguesas quanto ao modo como devemos viver. Aquele que assim procede mescla-se a uma massa anônima e se transforma em parte impessoal dela. Ele foge de si mesmo e se refugia na mentira. De outra parte, a liberdade do homem nos obriga a fezer de nós alguma coisa, a ter uma existência "autêntica" ou verdadeira.

Sofia Amundsen e Alberto Knox, em O Mundo de Sofia, pág.463, de Jostein Gaarder, Ed. Círculo do Livro, 1991.

domingo, junho 05, 2005

"Perder para ganhar", assim dizia o horóscopo que ela lia às escondidas. Não queria admitir que preferia que um destino ou força superior fosse responsável por sua vida. Ainda tinha medo da idéia de que era a dona da sua história. Tal qual no filme moralista, era ela quem fazia as escolhas...

sexta-feira, junho 03, 2005

Parecia-lhe que sua vida serviria para que coletasse memórias, tal qual dados. As grandes, inesquecíveis e as pequenas, esquecíveis, mas passíveis de serem lembradas. Inesquecíveis eram os momentos únicos, aqueles que enquanto mesmo aconteciam já se sabia que eram memoráveis. Vivia-os com intensidade e guardava-os com igual força. Eram como momentos definidores, clímax de filmes. Quando a música subia, as cores ficavam mais vivas. Mas não passavam de momentos, não se repetiam e por isso era tão importante armazená-los na memória orgânica e sentimental. Eram olhares nos quais poderia se perder para sempre. E por aqueles instantes perdia-se. Mas tinha de retornar (será mesmo?). As pequenas memórias, por sua vez eram construídas no dia-a-dia. Momentos que só se sabiam memoráveis depois de acontecidos, de tão simples, cotidianos que pareciam. Eram como filmes anti-climáticos, verborrágicos de Richard Linlaker ou Erich Rhomer nos quais o todo é importante, não apenas um determinado momento. Talvez o fato de conterem em si o potencial de repetição tirasse desses momentos a urgência e a beleza trágica. Mas continham a esperança do retorno. Esperança que podia ser cultivada. Não eram momentos de perdição, mas de certezas (inda que relativas) e repetições. E ás vezes repetir não é ruim.
E assim ia, colecionando memórias. Enquanto tentava mesmo era entender porque repetir (um momento) deveria ser melhor que perder-se (num momento).

quinta-feira, maio 19, 2005

E então é isso mesmo. Anakin Skywalker se tornou Darth Vader por ter suas fraquezas manipuladas por Palpatine. Mas o interessante é que estas fraquezas não eram sede de poder, arrogância (em determinado momento o próprio Yoda é chamado de arrogante), não eram sentimantos considerados "ruins". Pelo contrário, a fraqueza de Anakin é seu amor, sua doação extrema a Amigdala, seu medo de perdê-la. Muito humano, me parece. É até fácil entender Anakin e sua escolha errada. Pois os Jedis chegam a parecer frios no seu desapego, sua raiconalidade, sua capacidade de pensar num bem maior, para além dos indivíduos. Entendemos quando Obi-Wan diz que Palpatine é mal e Anakin responde que do ponto de vista dele os Jedis é que são maus. Naquele momento, o ponto de vista dele até faz sentido. Frente ás conseqüências posteriores de tudo, sabemos como ele está errado. Mas ele não tinha como saber. O grande erro de Anakin acaba sendo sua escolha, que é mediada pela paixão. E a linha entre bem e mal, bom e ruim acaba parecendo muito tênue. No final, sabemos que Amigdala está certa ao dizer que há algo de bom em Anakin. Tanto que é isso que irá salvar todos em O Retorno de Jedi. Não esqueçamos que é Anakin/Drath Vader quem joga o Imperador da nave. Só ele tem a ira para matar. E só seu filho, Luke, terá a compaixão para salvá-lo.

Ainda que pareça um filmão B, com uns diálogos meio toscos, de alguma forma Star Wars guarda uma mitologia realmente envolvente, emocionante e inteligente. E que faz todo o sentido neste último filme. Não dá pra explicar como este que é apenas o terceiro filme é ao mesmo tempo o último. Só vendo para entender.
"Ignorar que a tarde vai
Vadia e mítica"
Te ver, Skank

Já sei, mesmo 3 horas antes de ver o filme, que em Episódio 3 Yoda fala a Anakin sobre o desapego ás coisas, que isso serai importante para que ele se tornasse um Jedi. Sabemos todos que ele vai trilhar o caminho contrário, talvez exatamente por não conseguir se desligar dos seus afetos. Me pergunto ocorre isso, esse desapego. Até faz sentido que tudo se torne mais simples sem afeto: sem anseisos, angústias, cobranças. E sem esperanças e fantasias. Com uma carga de desejo milimetricamente controlada para ser satisfeita com o que é possível e nada mais.
Será Darth Vader mais humano que os Jedis? Provavelmente não tanto mas quem sabe não é a humanidade de Anakin, manipulada, que permite tornar-se Darth Vader.
E eu ainda nem vi o filme...

terça-feira, maio 10, 2005

"[..]
- Tente imaginar que tudo o que vivemos acontece na mente de outra pessoa. Nós somos essa mente. Não possuímos, portanto, uma alma própria. Somos a alma de outro. Até aqui estamos no campo da filosofia. Um campo que nos é familiar. Berkeley e Schelling iriam aguçar seus ouvidos. [...]"
Alberto Knox, in O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, pág. 361, Ed. Círulo do Livro, 1991.

E se não passamos de produtos de uma consciência maior? E se nesse caso tivermos de aceitar que nossos pensamentos, nossas criações e fantasias podem ter vida? E se por um momento tivermos de aceitar que o mundo não gira ao nosso redor, que podemos tão ser tão responsáveis por nossas vidas quanto essas palavras estão sendo por se autodigitarem? Mas e se ainda assim existir um liver arbítrio?
Músicas da gaveta... (aquelas que guardo para o dia em que fazem sentido)

Seja Você
Paralamas do Sucesso


Vai sempre ter alguém
Com mais dinheiro, mais respeito
mais ou menos tudo que se possa ter
Vai sempre sobrar, faltar
Alguma coisa somos imperfeitos
e o falta cega pro que já se tem

Eu não te completo
Você não me basta
Mas é lindo o gesto de se oferecer

O que eu quero nem sempre eu preciso
Mas de um sorriso quando me entender
Seja você
Seja só você

segunda-feira, maio 02, 2005

Quando criança aprendi a fazer pedidos a primeira estrela
Olhava para o céu à tardinha, à procurá-la
Ansiosa pelos desejos

Ainda hoje olho para o céu ao entardecer
À procura da mesma estrela
Mas já não cobro que realize desejos
(Isto é incubência minha, já entendi)
Apenas que não me permita esquecer os sonhos
O que são essas linhas imaginárias que nos ligam uns aos outros? Isso que chamamos de sentimentos, essas estranhas sensações misturas de reações somáticas (taquicardia, falta de ar, perda de equilíbrio, ruborização,...) com genuínas percepções mentais (medo, raiva, carinho). Esses sintomas psicanalíticos que nos imepedem de entender o mundo e o outro pela ótica tão acertada da razão. Alguns antigos sábios filosofos já disseram que, onde nossa razão não pode alcançar (e a mim parece haver todo um infinito aí), nossa capacidade de acreditar, ter fé, atua de forma a nos permitir um entendimento do mundo a nossa volta. Não é reproduzível por experiências empíricas pois é pessoal e intransferível, na melhor das hipóteses pode ser compartilhado com semelhantes, de crenças/experiências semelhantes. Mas é o que nos "acalma, acolhe a alma, ajuda a viver", já que não somos capazes de entender de forma racional o mistério que nos cerca. Dessa forma a fé talvez seja o sentimento que nos mantêm unidos a todo o universo do qual, indubitavelemnte, fazemos parte de alguma forma. Da mesma forma, nossos sentimentos mais "mundanos" de medo, raiva, amor, amizade, compaixão, paixão são o que nos permite viver dia a dia uns com os outros. As pessoas são para mim um mistério quase tão grande quanto o do universo que me cerca, pois são, cada uma, um universo em si mesmas (algum filósofo já disse isso, só repito). E a convivencia com esses mistérios só é possível através dos sentimentos, às vezes torpes, mas muitas vezes sublimes que nos ligam uns aos outros. E que a minha razão continua não sendo capaz de explicar (ainda que eu possa tentar imaginar conexões mentais, sintonias corpóreas, etc)...

sexta-feira, abril 22, 2005

Lembro de uma vez, quando criança, conversar com algumas colegas no horário de recreio sobre como seria o Céu. A idéia vigente era do céu cheio de nuvens macias. Declarei, na época, que achava esse paraíso muito sem graça, ficar em nuvens, sem nada para fazer. Não lembro bem de qual seria meu "paraíso" aquela época. Hoje também não sei muito bem como seria, até porque tento me concentrar mais aqui na Terra mesmo. Fico imaginando se nossos sonhos de paraíso de hoje (que talvez involvam um simulacro de Terra melhorado, com mais respeito entre os seres humanos, mais áreas verdes, praias, sem tecnologias poluentes/destruidoras) não podem ser a Terra de gerações futuras. Se de alguma forma essa idéia de um lugar melhor não pode estar, não no além vida mas no além tempo, no futuro (se soubesse algo sobre teoria do tempo/espaço curvo poderia explicar a idéia maluca). Nesse futuro, então, crianças (e adultos) inconformistas como eu sonhariam com outros paraísos...

quinta-feira, abril 21, 2005

Às vezes tinha dificuldade para definições. De sentimentos, de acontecimentos, de desejos. Talvez por isso usasse tanto a palavra "coisa". Aquela coisa podia referir qualquer coisa que não sabia definir. Mas porque não sabia? Ainda que nunca tivesse lido um dicionário inteiro ou que não fosse uma Imortal tinha algum conhecimento da língua pátria. Então, porque tanta dificuldade para nomear o que sentia? Sabia o que era. Só não sabia o nome das coisas...

sábado, abril 09, 2005

"Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instanteneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.
...


Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu."


Introdução do livro O Restaurante no Fim do Universo, a continuaçào inteligente e divertida de idem O Guia do Mochileiro das Galáxias, ambos de Douglas Adams.

sexta-feira, março 25, 2005

Razão e emoção. Jane Austen, dentre tantos outros (creio que mesmo o Bardo, aquele que melhor descreveu nossas emoções), já escreveu em Sense and Sensibility (que virou filme de Emma Thopson, dirigido por Ang Lee) sobre como pode ser (ou simplesmente é) difícil conciliar essas duas funções do humano. Por vezes nos (ou pelo menos eu...) alegramos com pequenos gestos que achamos que não deveriam fazer diferença. Mas o que fazer se o sentimento é mais forte que a razão? Negar o prazer obtido em gestos, atitudes simples? Ou aceitar o fato de que mesmo não fazendo muito sentido (como se fossemos inteligentes o bastante para entender o sentido de tudo), aquilo, aquela pessoa e seus gestos, nos fazem felizes. Ainda que sem ter porque, sem ter razão. ;-)


Como dizem meus barbudos favoritos:

É bom, às vezes se perder
Sem ter porque, sem ter razão
Adeus você, Los Hermanos


E ainda, lembram-se de período Barroco, do regaste dos conceitos Clássicos? Ou, mais simples, de Sociedade dos Poetas Mortos?

Carpe Diem

quinta-feira, março 17, 2005

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Futuros Amantes, Chico


É possível que essa música já tenha aparecido nesse espaço virtual. É linda, simples (pelo menos aparentemente) e bela. E faz tanto sentido (de tantads e tantas formas) que lembrei dela uma vez ao ver, de Niterói, o Rio coberto de nuvens. Melhor dizendo, não vi o Rio, só vi nuvens e chuva. Imaginei (e cantei) uma cidade submersa...

domingo, março 13, 2005

"[...]O presidente, em particular, é simplesmente uma figura pública: não detém nenhum poder. Ele é aparentemente escolhido pelo governo, mas as qualidades que ele deve exibir nada têm a ver com liderança. Ele deve é possuir um sutil talento para provocar indignação. Por esse motivo, o presidente é sempre uma figura polêmica, sempre uma personalidade irritante, porém fascinante ao mesmo tempo. Não cabe a ele execer o poder, e sim desviar a atenção do poder. [...]"
O Guia do Mocheliero das Galáxias, de Douglas Adams

É um livro de ficção científica, de 1979, muito bem humorado, num estilo MIB. Mas é também um livro que tem a passagem acima, que parece saída do editorail de algum jornal importante de qualquer país democrático (ou não) de nossos tempos. Há que se considerar um livro "de gênero" ,e seu autor, que é crítico para além de seu pre definido gênero. E Douglas Adams consegue isso em O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Talvez o pior de tudo fosse o fato de que não podia se queixar ao gerente. Recebera exatamente aquilo o que desejara. Se desejara o mínimo, por acreditar que isso já lhe bastasse, era problema seu. O gerente, fosse quem fosse e ela não sabia muito sobre isso, nunca o vira, talvez apenas acreditasse na existência de tal "gerente", servira-a muito bem, tudo funcionara conforme o seu desejo inical. Tirando o fato de que terminara rápido. Então, se descobria que podia ter o que desejasse, tinha gora que entender que podia desejar o que bem entendesse, ou o que realmente quisesse, sem medo de não merecer. O gerente parecia inteligente o bastante para ser capaz de fazer tal julgamento de tal forma que ela poderia abrir mão do seu auto pré-julgamento, sempre mais severo que o necessário. Precisava aproveitar melhor sua estada no planetinha, afinal de contas não sabia para onde iria depois...
Imaginara que seria fácil, pois imaginava tudo. Mas descobria que era mais difícil do que imaginara, também. Se ao menos pudesse não pensar, esquecer. Já sabia que não podia e que não daria certo. Acreditava em filmes e teorias. Acreditava em tanta coisa que às vezes não entendia nada...

sexta-feira, março 11, 2005

"... Será que a ficção apenas suga a realidade, na vã tentativa de oferecer sentido, o sentido das palavras, àquilo que não faz e nem pode fazer nenhum sentido? Será?"
De cada amor tu herdarás só o cinismo, de Arthur Dapieve

E Dapieve escreve num misto de Nick Hornby, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca. Uma salada que rende um livro a ser lido de uma só vez. Ah, ainda tem um capítulo que eu, que não sou conhecedora, achei ter algo a ver com o jornalismo gonzo. Salada interessante sobre o universo masculino.
Escrevia na terceira pessoa, talvez menos por escolha estilística e mais por pura timidez ou medo. Mesmo ao escrever ficções tinha medo do quanto de si estava ali, do quanto estava entregando dos seus sentimentos, paixões e pensamentos, ainda que aquela primeira pessoa fosse ser entendida por todos como uma personagem. Mas era também ela mesma. Não poderia escrever na primeira pessoa uma personagem que sofria com a frieza do amigo quase amante. Uma personagem tão medrosa quanto ela mesma, que não era nem mesmo capaz de admitir que sofria pela perda do quase amante, um pouco mais do que pela distância do amigo. Mas que se resigniva nesse de lugar de não admitir o que sentia. E nesse lugar de definir papéis por "quases", pura inconpetência para admitir o que realmente queria que fosse. Mas, ainda assim, podia dizer que era só uma tentativa estilística de escrever uma personagem tímida. Não era ela, não é?

quinta-feira, março 10, 2005

"O que faz alguém escolher um meio de comunicação do qual desconfia quando bem poderia chamar para um papo ao pé do ouvido no corredor? A idéia de que o corredor talvez estivesse, na cabecinha daquela Danna Scully da Carlos Góes, infestado de microfones conectados diretamente à sala de Umberto Milano arrancou de Bernardino o primeiro sorriso desde que aquele pipocar de mensagens começara."
De cada amor tu herdarás só o cinismo, de Arthur Dapieve.

Dapieve, em sua prosa simples, quase parecendo simplista, consegue no seu primeiro romance passar além da enxurrada de referências a cultura pop e enxergar também um pouco dos relacionamentos no século XXI (que no fundo não devem ser assim tão diferentes daqueles do século XII: homem e mulher, ou seja duas pessoas, que se querem e todo o resto de si mesmos e do mundo a atrapalhar). Não, não é Nick Hornby, mas consegue prender a gente ao livro. Como nas suas crônicas.
"Matar uma pessoa para defender uma idéia, não é defender uma idéia. É matar uma pessoa."
Nossa Música, filme de Jean Luc-Godard, em cartaz

domingo, março 06, 2005

Nick Hornby escreve (muito bem) sobre a cultura pop e sua influência na vida dele. Creio que gosto de seus livros porque me identifico com isso. Quinta-feira passada, convalescente de uma intoxicação alimentar, assistia tv à tarde com meu irmão e tive o prazer de poder ver Arquivo X. E ainda um dos poucos episódios da séries Clássica (1a a 5a temporadas, 6a e 7a ainda podem ser consideradas) que não tinha visto: O Serafim. Belo episódio, centrado na Scully, sobre fé. Me fez pensar nas diferenças entre religião e ciência a partir dos embates entre Mulder e Scully. Impagável ver Mulder sendo o cético da "relação". E também em como não fé e religião podem não ter nada a ver. E que fé pode ter muito a ver com ciência como no caso de Mulder e sua crença nos "homenzinhos cinzas" e própria fé de Scully que não é compreendida pela própria Igreja Católica. É por isso, porque sempre me fez pensar e descobrir fatos novos, que adoro essa série, esse produto da cultura pop. Faz parte da minha vida...

It's not a tv series
It's The X Files